O caso da Hapvida tornou-se um exemplo emblemático de como a pressão por resultados de curto prazo pode colidir frontalmente com o propósito essencial de uma empresa de saúde. A sucessão anunciada em dezembro de 2025 — com Jorge Pinheiro deixando o cargo de CEO para assumir como chairman executivo e Luccas Adib, atual CFO, assumindo a presidência ao longo de 2026 — vai muito além de uma simples troca de comando.
Trata-se do sintoma mais visível de uma crise estrutural. A companhia que já foi rotulada como a “Amazon da saúde”, com valor de mercado próximo a R$ 110 bilhões, perdeu entre 50% e 58% de seu valor apenas em 2025. A sequência de resultados fracos, sinistralidade elevada, queima de caixa e, sobretudo, a perda acelerada de beneficiários acendeu alertas no mercado.
Reportagens recentes indicam a saída estimada de cerca de 60 mil clientes em um único trimestre. No centro dessa dinâmica está uma estratégia que busca reduzir artificialmente a sinistralidade por meio de barreiras administrativas, negativas de cobertura e aumento deliberado de atrito com o beneficiário. O cenário se agrava diante de denúncias de descumprimento de liminares judiciais e ações civis públicas, especialmente no Amazonas, envolvendo atendimento a crianças com transtorno do espectro autista.
A questão central, que deveria orientar qualquer conselho de administração, é direta e incômoda: é possível construir lucratividade de longo prazo em saúde lucrando contra o paciente que mais precisa do serviço?
A saúde suplementar brasileira vive um momento de teste de limites entre eficiência operacional e responsabilidade ética. Quando um CFO assume o posto de CEO em meio a esse contexto, a leitura do mercado é quase automática: o foco financeiro tende a se intensificar. O risco é aprofundar a erosão de confiança, ampliar o contencioso jurídico e acelerar a fuga de beneficiários — um ciclo difícil de reverter.
Experiências em processos de turnaround em empresas reguladas mostram que não existe recuperação sustentável sem um reposicionamento cultural e de propósito. Sem a confiança do beneficiário, dos médicos, do regulador — a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) — e dos investidores, nenhuma engenharia financeira é suficiente.
O desafio da Hapvida em 2026 não será apenas melhorar indicadores. Será responder se ainda compreende que saúde não é commodity. Quem ignora essa premissa costuma pagar caro — em valor de mercado, reputação e, no limite, em vidas.
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