Oaumento dos casos de violência contra a mulher no Brasil tem intensificado o debate sobre a necessidade de mudanças estruturais na educação e nas políticas públicas voltadas ao tema. Especialistas apontam que medidas exclusivamente punitivas, como o aumento de penas, não são suficientes para conter o avanço da violência e defendem estratégias focadas na prevenção e transformação social.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o país registrou 1.492 feminicídios e 3.870 tentativas em 2024 — altas de 0,7% e 19%, respectivamente. O levantamento também aponta 87.545 casos de estupro, o maior número da série histórica. Outro dado preocupante é que 65% das ocorrências de violência contra a mulher acontecem no ambiente familiar.
Para o advogado Renan Alcantara, mestre em Políticas Sociais e Cidadania e monitor da Clínica de Apoio Contra a Violência à Mulher (Clavim), o enfrentamento ao problema passa necessariamente pela educação.
“Com crianças e adolescentes, é fundamental trabalhar nas escolas questões relacionadas ao respeito, à igualdade de gênero e ao combate ao machismo. Já na fase adulta, é necessário investir em processos de reeducação e socialização mais efetivos”, afirma.
Segundo ele, a abordagem preventiva tende a ser mais eficaz do que o endurecimento das punições, alinhando-se a correntes como o Garantismo Penal, que defendem a racionalidade e a limitação do uso do sistema penal.
Bahia registra alta demanda por proteção
Na Bahia, o cenário também exige atenção. Dados do Tribunal de Justiça do Estado (TJBA) mostram que, apenas em 2025, foram registrados 31.302 pedidos de medidas protetivas de urgência, dos quais 30.163 foram deferidos. Nos dois primeiros meses de 2026, já haviam sido concedidas 6.024 medidas, indicando crescimento na busca por proteção judicial.
A desembargadora Nágila Maria Sales Brito, presidente da Coordenadoria da Mulher do TJBA, reforça que a atuação do sistema de justiça, embora essencial, não é suficiente isoladamente.
“O enfrentamento à violência contra a mulher não depende apenas da justiça. Investir na educação e na mudança de comportamento, especialmente entre os homens, é fundamental para construirmos uma sociedade mais justa”, destaca.
Masculinidade e transformação social
O tema também é abordado no livro “A Anatomia da Violência: O Ciclo Vicioso da Masculinidade Tóxica e o Caminho da Transformação”, lançado em 2025 por Renan Alcantara.
A obra analisa a relação entre padrões de masculinidade e a perpetuação da violência de gênero, propondo caminhos para transformação social a partir da educação, da conscientização e do fortalecimento de políticas públicas.
Com base em experiências práticas e pesquisa acadêmica, o autor defende que o enfrentamento da violência exige ações integradas entre educação, justiça e sociedade.
O debate ganha relevância em um contexto em que os indicadores seguem em alta, reforçando a urgência de políticas estruturais que atuem não apenas na punição, mas principalmente na prevenção e na formação de novos padrões de comportamento.
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