Se você é baiano e patriota, conhece esses dois personagens da Independência da Bahia: quem tocou a corneta e quem fugiu de madrugada. Aos que não conhecem, farei breves apresentações.
O primeiro era um músico boêmio, corneteiro oficial da tropa brasileira que, diante de um exército português muito maior e liderado por um general miseravão, já nos estertores da Batalha de Pirajá, recebeu do seu superior o comando da retirada. No que o corneteiro Lopes, maliciosamente, tocou a plenos pulmões “cavalaria, avançar & degolar”. Não havia cavalaria. Havia uma tropa a pé que acreditou no toque. Os portugueses também acreditaram e correram.
O segundo é um portuga carniceiro, que também tocava, mas era o terror na Bahia, mesmo após o arranjo oficial da independência do Brasil. O comandante das tropas portuguesas, cidadão de bem, passou meses cercado em Salvador jurando que dali não arredaria o pé. Talvez pelas tórridas noites nas ladeiras do Taboão brincando de picula com cabrochas recém-forras. O fato é que, na madrugada de 2 de julho de 1823, arregou. Embarcou e fugiu com a sua tropa pelo mar, deixando a cidade para os baianos e o Brasil para os brasileiros.
Dois séculos depois a história rimou. Um outro piroca das ideias, aos 45 do segundo tempo, pegou uma corneta que uma outra campanha oficial hesitava em tocar e… “EXPLOODE!!!!”. Bradava Janones para uma tropa digital que, mesmo combalida pelo primeiro turno, foi para cima e Luiz Inácio virou o jogo. E é aí que surge a subtrama que só o Brasil é capaz de produzir!
No domingo, o derrotado Flávio Bolsonaro, também cidadão de bem e, segundo a imprensa, também frequentador de zonas tórridas, não reconheceu o revés. Na segunda-feira, sua entourage legitimou o pleito e jurou que ele lideraria a oposição. Ainda na segunda, Flávio afirmou que nunca passou por sua cabeça sair do Brasil. Na terça-feira, fugiu.
Foi para a terra do pateta. O General miseravão, ao menos, teve a decência de sair com sua tropa. O playboy fugiu só, deixando quase 60 milhões de eleitores no cais, ainda ouvindo a ordem de resistir.
Em algum lugar eu disse que, tropa que só sabe obedecer a toques, cedo ou tarde, avança para o abismo. Mas tropa cujo líder foge também tem lição a tirar: patente nenhuma garante coragem e nem dá honradez a moleque.
Na Bahia, o 2 de Julho é festa até hoje. O povo é saudado na figura do caboclo; os abastados patriotas, brasileiros que puseram suas fortunas em risco no cerco a Salvador, tiveram os nomes das suas famílias eternizados nos livros oficiais; o corneteiro Lopes é estátua de bronze na Visconde de Pirajá, na boêmia Ipanema. Do general que ninguém lembra. Mas, se você chegou até aqui, deve estar curioso pra saber o nome do sacripanta.
Não é que o fanfarrão chamava-se, vejam só, INÁCIO LUIZ Madeira de Melo?
Pois é! Luiz Inácio, ao contrário, fugiu para Portugal, corte a quem devia obediência; Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos da América, corte a quem ele não deve absolutamente nada, mas oferece tudo. Apesar de Cortes diferentes, ambos têm o mesmo destino: a lata do lixo da história.
Por Antonio Carneiro Neto.
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