Ainda ecoam dentro da minha cabeça as palavras sussurradas pelo professor de literatura John Keating — interpretado pelo ator Robin Williams no filme Sociedade dos Poetas Mortos — nos ouvidos dos seus alunos, o qual assisti estes dias: “Carpe Diem. Façam suas vidas extraordinárias!”. Essa frase em latim faz sua aparição na obra Odes, do poeta romano Horácio, e, em português, é traduzida como “aproveite o dia!”.
O mundo anda meio estranho. Essa é a verdade: compramos vorazmente coisas de que não precisamos e fazemos o que não apreciamos. Corremos para não nos atrasar, mas, na busca por não nos atrasar, atrasamos o tempo de saborear cada mordida na fatia do pão, cada gole de café e o cafuné de bom-dia dos filhos.
Tal modo de vida implicou sobre nós um estado de alerta de consciência quase patológico: corações angustiados, mentes aceleradas, corpos em descompasso! Bem-vinda, ansiedade! Assim somos nós: uma espécie em crise consigo mesma! É o convite perfeito para lotar os consultórios de psiquiatria e psicologia: “— Dr., estou sentindo um peso imenso… Dr., não consigo sentir o sentido da vida”, dizem os pacientes ao doutor, este também consumido por seus dias intensos e sem sabor.
Embora as medicações tenham os seus efeitos — sobretudo no que diz respeito à diminuição dos sintomas fisiológicos negativos, como a insônia, a palpitação do coração e a sudorese —, a terapia, com o seu acolhimento e preparação para o caminho, precisa ir além dos sintomas. Trata-se de algo preponderante na busca pela boa saúde.
É aí que a sentença sussurrada pelo professor Keating floresce no deserto como um dogma inexorável, o tapete florido sobre o qual a saúde mental deverá caminhar: transformar a vida ordinária em uma vida extraordinária, ou momentos ordinários em extraordinários. Como, por exemplo, andar para sentir o sol aquecendo seus sonhos ou sair num dia de chuva pela rua, sem pressa, sentindo as pequenas gotas de água tocando a pele; poder parar o expediente no meio da tarde e sentar-se diante da pessoa amada e jogar “Uno” saboreando um brownie de chocolate com chá gelado de frutas vermelhas, contemplando o luMiar do sorriso dela.
São as pequenas coisas que valem mais, já dizia o poeta Renato Russo. Essas pequenas vivências são as pílulas de antimonitonia que devemos ingerir diariamente, tornando cada experiência um ato poético e gerando uma sociedade de poesia viva. Por isso, meus caros leitores, digo-lhes, não de modo sussurrado, mas em letras garrafais: CARPE DIEM! APROVEITEM O DIA. FAÇAM A SUA VIDA EXTRAORDINÁRIA!
Por Iarodi D. Bezerra, Psicoterapeuta e Escritor
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