Por Patrícia Costa Lino*
Escolher uma profissão é uma decisão. Construir uma carreira é um processo. E um dos maiores equívocos quando falamos sobre carreira é imaginar que essa construção termina quando finalmente encontramos o nosso lugar.
Ao longo dos anos trabalhando com orientação profissional e desenvolvimento de carreiras, percebo o quanto somos pressionados a encontrar respostas. Quem está começando quer saber qual área escolher, qual experiência buscar, em que se especializar. Mais adiante, as perguntas mudam: permanecer ou mudar? Especializar ou ampliar a atuação? Assumir uma posição de liderança? Empreender? E mesmo depois de uma trajetória consolidada, outras questões podem surgir: o que ainda quero construir? Que conhecimento posso compartilhar? Qual contribuição desejo deixar?
Essa reflexão se torna ainda mais necessária diante da velocidade das mudanças no mundo do trabalho. O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das competências atualmente utilizadas pelos trabalhadores deverão mudar ou se tornar obsoletas até 2030. O dado provoca quem está entrando no mercado, mas deveria provocar igualmente quem já construiu uma trajetória profissional sólida.
No Direito, caminhos tradicionais permanecem relevantes, enquanto novas possibilidades de atuação surgem e diferentes conhecimentos passam a se conectar. Mais do que tentar prever qual será a carreira do futuro, é mais importante desenvolver a capacidade de fazer boas escolhas em um cenário que continuará mudando.
Talvez por isso eu goste menos da ideia de “carreira perfeita” e mais da ideia de carreira coerente: aquela que faz sentido para quem a constrói, ainda que esse sentido possa mudar ao longo do tempo.
E aqui existe outro desafio: evitar construir a própria trajetória utilizando a carreira dos outros como régua.
Em um ambiente no qual acompanhamos promoções, novos cargos, aprovações, sociedades, títulos e conquistas profissionais quase em tempo real, é fácil imaginar que existe um cronograma correto para uma carreira bem-sucedida. Mas carreiras não obedecem a um único tempo, nem precisam seguir o mesmo percurso.
Por isso, as perguntas sobre carreira não terminam. Elas apenas mudam. Em alguns momentos, precisamos perguntar onde queremos chegar. Em outros, se ainda queremos permanecer onde chegamos. Há momentos de aprender, aprofundar, mudar, liderar, compartilhar e também recomeçar.
Talvez o maior desafio de uma carreira não seja chegar ao lugar que imaginamos no início, mas construir uma trajetória na qual continuemos nos reconhecendo ao longo do caminho. Porque carreiras não são construídas apenas no início da vida profissional. Elas se transformam conosco.
*Patrícia Costa Lino é administradora de empresas, especialista em Gestão de Projetos, Marketing e Inteligência de Mercado, com formação em Orientação Profissional e de Carreira e em Coaching de Carreira e Liderança. É responsável pelo Núcleo de Relacionamento com Egressos e Desenvolvimento de Carreiras da Faculdade Baiana de Direito.
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