Lembro-me com carinho da minha professora de quando eu tinha 6 anos. Infelizmente, após muito tempo, a memória foi afetada, esqueci o seu nome. Bom, para meu conforto, o afeto dela ainda está em um quadro preso nas paredes da minha lembrança.
Todos os profissionais do mundo foram formados por professores. Essa é uma afirmação verdadeira. Sim, todos: dos bem-sucedidos e líderes mundiais até aqueles que não ocupam um lugar onde o holofote se debruça sobre eles. Todos carregam dentro de si a importante missão de reger o futuro da humanidade através dos conhecimentos transmitidos diariamente, por toda a vida. Outro ponto sobre os professores é que eles são um verdadeiro mapa que nos norteia em direção a um propósito.
Bom, caro leitor, nestes dias que antecederam o Dia de Finados (no Brasil), refleti muito sobre o fenômeno da morte como uma professora também. Eu sei que o impacto dela é como se fosse uma foice afiada que corta a carne, rompe músculos e tendões, e destroça ossos até encontrar a fina pele da alma, causando uma dor intensa. Isso a torna uma professora indesejada nas salas de aula da nossa existência, porém não podemos fugir do seu olhar.
Embora ela carregue consigo esse currículo doloroso, a professora morte possui outras linhas de ensino que são bastante claras. A primeira é que a vida precisa ser vivida com intensidade, pois o fim é certo… seja quando for! Muitas pessoas têm medo de pensar nela, ou melhor, no próprio fim. Por isso, *tentam fugir da disciplina, desmerecendo seu conteúdo; pelo contrário, esse ensino é vital! Filósofos dizem o seguinte: “Para se ter uma boa vida, é necessário saber que irá morrer!”
A segunda é que ela não ensina somente sobre o próprio fim, mas sobre o que vem a partir do fim do outro. É fato que, com a sua pontualidade caótica, traz para quem fica um rastro de devastação: tristeza, dor, medo, raiva e a sensação de estar perdido. Há uma matéria em paralelo a esses sentimentos: o luto!
O ensino dela é claro: perder alguém amado é doloroso, mas você que está vivo… viva! Você pode achar isso uma loucura, caro leitor, mas ela tem razão! A perda do outro abre diante de nós um mundo de vida impressionante; faz valer cada minuto do que nos resta como se fosse a última vez, sobretudo a partir da vida vivida por quem partiu.
Imagino-a escrevendo o tema da saudade com um pedaço de giz em um quadro-negro: Saudade é o amor que ficou em suspenso pela pessoa que partiu. Costumo falar para pacientes enlutados que saudade não se trata, pois não é doença. É uma dor, no início, insuportável que, com o tempo, se consegue carregar.
Também a imagino pegando um aparelho de som e, com movimentos sensíveis — contrastando com o seu manto denso e caótico —, liga-o para que todos nós, seus alunos, a compreendamos musicalmente, para além da frieza que ela representa. Calmamente, procura a faixa desejada. E, de repente, nos espaços vazios da sala ecoa a voz poderosa de Freddie Mercury cantando a linda canção da banda inglesa Queen, The Show Must Go On. Traduzindo:
O show não pode parar!
Talvez só ao final da aula a reconheçamos como uma grande professora!
Iarodi D. Bezerra – Psicoterapeuta e Escritor.
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