Você já parou para pensar que talvez não esteja enxergando o mundo exatamente como ele é, mas como aprendeu a enxergá-lo?
Desde muito cedo, começamos a construir uma imagem de nós mesmos a partir do olhar do outro. Antes de termos palavras para explicar quem somos, já recebemos olhares, gestos, elogios, críticas, acolhimento e rejeição. Aprendemos, pouco a pouco, o que parece ser esperado de nós, o que merece aprovação e o que pode nos fazer perder o afeto de alguém.
Uma criança frequentemente chamada de inteligente pode crescer sentindo que precisa acertar sempre. Aquela que escuta que é difícil ou exagerada pode aprender a desconfiar dos próprios sentimentos. Quem precisou lutar muito por atenção talvez se torne um adulto que interpreta a ausência de uma resposta como rejeição.
O olhar do outro não determina sozinho quem nos tornamos, mas participa dessa construção. E, com o tempo, podemos passar a olhar para nós mesmos e para o mundo através dos filtros que fomos adquirindo.
O problema começa quando confundimos esses filtros com a própria realidade.
Se aprendi que não sou bom o suficiente, uma observação profissional pode parecer uma confirmação da minha incapacidade, mesmo quando é apenas uma oportunidade de melhorar. Se aprendi que serei abandonado, uma demora em responder a uma mensagem pode despertar medo, desconfiança ou raiva. Se acredito que preciso agradar para ser amado, dizer “não” pode provocar uma culpa desproporcional.
O acontecimento é um fato. A interpretação que fazemos dele pode ser outra.
Isso não significa que toda dor seja fruto de uma interpretação equivocada. Existem rejeições, injustiças, desrespeitos e relações que realmente nos ferem. O desafio é aprender a distinguir o que o outro efetivamente fez daquilo que a experiência despertou em nós.
Nas relações amorosas, essa diferença pode mudar uma conversa inteira. Em vez de perguntar por que o outro não se importa comigo, posso começar investigando o que, naquela situação, me fez sentir desconsiderado. No trabalho, em vez de transformar uma discordância em prova de que não sou valorizado, posso procurar compreender o que foi dito, o que de fato aconteceu e o que estou acrescentando à situação.
Não se trata de justificar tudo, tolerar desrespeitos ou assumir a culpa pelo comportamento alheio. Trata-se de reconhecer que, entre o que acontece e a maneira como reagimos, existe um espaço que podemos aprender a ocupar com mais consciência.
E é nesse espaço que a mudança começa.
Conhecer a si mesmo é também descobrir de onde vêm os olhos com que você enxerga o mundo.
O conhecimento que liberta não é aquele que nos oferece uma explicação para tudo, muito menos uma desculpa para nossas reações. É aquele que amplia nossa compreensão e nos devolve a possibilidade de escolher.
Não escolhemos tudo o que sentimos, mas podemos aprender a reconhecer nossos sentimentos, examinar nossas interpretações e decidir como agir. Podemos descobrir que uma crença antiga já não corresponde à pessoa que somos hoje. Podemos aprender a ouvir uma crítica sem transformá-la em condenação, a estabelecer limites sem nos sentirmos cruéis e a receber afeto sem precisar provar continuamente que o merecemos.
Talvez amadurecer seja, em parte, deixar de viver apenas a partir do olhar que recebemos e começar a construir, com responsabilidade, o olhar que escolhemos ter.
Isso exige coragem. Afinal, algumas crenças que nos aprisionam também foram, um dia, maneiras de tentar nos proteger.
Mas aquilo que nos ajudou a sobreviver em uma etapa da vida pode limitar a maneira como vivemos a seguinte.
Por isso, antes de concluir que o outro nos rejeitou, nos desvalorizou ou não nos compreendeu, talvez valha a pena fazer uma pausa. Não para duvidar sempre de nós mesmos, mas para olhar com mais clareza: o que aconteceu, o que senti, o que interpretei e o que posso fazer agora?
Um convite à reflexão
Reserve alguns minutos para responder com honestidade:
- Que imagem de mim mesmo aprendi a construir a partir do olhar das pessoas importantes da minha vida?
- Quando me sinto criticado, rejeitado ou desvalorizado, o que realmente aconteceu — e o que estou interpretando a partir das minhas experiências?
- Em quais relações, amorosas ou profissionais, repito reações que talvez pertençam mais à minha história do que à situação presente?
- Que crença sobre mim ou sobre os outros preciso ter coragem de questionar para me relacionar de maneira mais livre e madura?
Não podemos mudar todos os olhares que recebemos ao longo da vida. Mas podemos aprender a não depender deles para definir quem somos.
E talvez uma das travessias mais importantes seja justamente esta: deixar de enxergar o mundo apenas pelos filtros que recebemos e aprender a olhar com mais consciência, liberdade e responsabilidade.
Até a próxima travessia.
Katya Di Pierro Terapeuta Integrativa, apaixonada pelo desenvolvimento humano e pelas histórias que transformam vidas.
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