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Capa Colunistas

Os lugares onde a vida acontece

Nós atravessamos a vida em espaços.

Publisher por Publisher
24/08/2026
em Colunistas
Tempo de Leitura: 4 minutos
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Katya Di Pierro

Luciana Bahia

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Hospitais, escolas, casas, ruas, consultórios, empresas. Lugares onde trabalhamos, aprendemos, adoecemos, nos recuperamos, encontramos pessoas, fazemos escolhas e construímos nossas histórias.

Nós não apenas ocupamos os lugares. Somos também afetados por eles.

Você já entrou em um lugar e sentiu vontade de permanecer?

Às vezes não sabemos explicar exatamente o motivo, mas nosso corpo parece respirar melhor. Enquanto em outros lugares acontece o contrário. Entramos e sentimos tensão, pressa, desconforto. 

Talvez isso aconteça porque os espaços não são tão neutros quanto imaginamos.

O ambiente também participa da nossa experiência de estar no mundo. A psicologia social já nos ensinou que o comportamento humano não pode ser compreendido isolando a pessoa do ambiente em que ela está inserida. Kurt Lewin, um dos pioneiros dessa área, tornou conhecida a ideia de que nosso comportamento resulta da relação entre a pessoa e seu ambiente.

Talvez isso pareça óbvio. Mas será que temos pensado suficientemente sobre isso?

Durante muito tempo, especialmente nos hospitais, acreditamos que um ambiente adequado ao cuidado deveria ser essencialmente funcional: limpo, organizado, silencioso, iluminado, quase desprovido de elementos que pudessem interferir na eficiência. A lógica da assepsia e da funcionalidade acabou criando espaços “vazios”. 

Mas algo começou a mudar.

Hoje, encontramos experiências que procuram devolver humanidade a esses lugares. Um exemplo muito interessante é a rede britânica Maggie’s, que criou centros de apoio para pessoas com câncer com espaços pensados para parecerem diferentes de um hospital. Há luz natural, jardins, cores, materiais acolhedores, cozinhas, espaços para conversar e também lugares para ficar em silêncio. A proposta é criar um ambiente que ofereça acolhimento, privacidade, encontro e tempo e isso afeta, positivamente, não somente os pacientes, mas também os profissionais que “habitam” ali.

São elementos que, à primeira vista, podem parecer pequenos diante da complexidade de uma doença. Mas talvez não sejam tão pequenos assim. A luz, a natureza, a arte, a música, o silêncio, a possibilidade de encontro e até a beleza podem ser elementos que ajudam a sustentar a experiência humana.

Não se trata de substituir o tratamento. Trata-se de lembrar que existe uma pessoa vivendo dentro daquele corpo que está sendo tratado.

E então surge uma pergunta que ultrapassa os muros dos hospitais:

Se começamos a humanizar os espaços destinados a pessoas doentes, quando iremos fazer o mesmo com os espaços onde pessoas saudáveis passam grande parte da vida?

Pense no seu ambiente de trabalho. É ali que você passa uma das maiores parcelas do seu tempo. É onde chega pela manhã, toma decisões, enfrenta conflitos, cria, produz, faz amizades, se frustra e comemora.

Durante muito tempo, os ambientes corporativos foram construídos quase exclusivamente em torno da produtividade com mesas, computadores, luzes frias, paredes neutras, metas e prazos – Tudo organizado para que a pessoa fosse funcional, produtiva.

Quando foi que começamos a acreditar que, para produzir bem, precisávamos trabalhar em lugares que quase não parecessem humanos?

É interessante perceber que algumas empresas já começaram a fazer perguntas diferentes.

O Google, por exemplo, ao projetar seu campus Bay View, incorporou luz natural, vistas para a natureza, espaços diferentes para concentração e colaboração, áreas externas e obras de arte. A própria empresa descreve o projeto como uma tentativa de repensar o que um ambiente de trabalho pode ser, colocando as pessoas no centro.

Isso não significa que um escritório bonito seja capaz de resolver problemas complexos como burnout, ansiedade ou depressão. Não é disso que estamos falando. Estamos falando de outra coisa.

De reconhecer que o ambiente também participa da nossa experiência de estar no mundo. 

Antes mesmo de pensarmos sobre um espaço, nosso corpo já está vivendo nele.

Talvez por isso exista uma diferença entre ocupar um lugar e habitá-lo.

Podemos passar oito horas em um escritório, cumprir tarefas, participar de reuniões e entregar resultados sem sentir que realmente estamos ali. E isso afeta, diretamente, nosso estado mental.

O espaço nos abriga, mas não necessariamente nos acolhe. E isso importa porque não existimos no vazio.

Nosso corpo, nossa família, nossa escola, nosso trabalho, nossa cidade. Todos esses espaços relacionais participam, de alguma maneira, da nossa forma de estar no mundo.

Quando uma sociedade começa a falar cada vez mais sobre sofrimento psíquico, esgotamento e qualidade de vida, precisamos olhar também para o mundo que estamos construindo ao redor das pessoas.

Pequenas mudanças não resolvem tudo. Mas podem nos lembrar de algo que, em meio à pressa e à produtividade, às vezes esquecemos: somos seres humanos antes de sermos “funções”.

E precisamos de mais do que espaços para funcionar. Precisamos de lugares onde seja possível estar, criar, descansar, encontrar, sentir e pertencer.

Porque, enquanto atravessamos a vida, estamos sempre habitando algum lugar.

E talvez cuidar dos lugares onde vivemos seja também uma maneira de cuidar de nós mesmos.

Até a próxima travessia.

Katya Di Pierro

Terapeuta Integrativa, apaixonada pelo desenvolvimento humano e pelas histórias que transformam vidas.

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