Há caminhos que precisamos fazer sozinhos. E há caminhos que só conseguimos sustentar porque alguém caminha conosco.
Talvez uma das grandes tarefas da vida seja aprender a fazer essas duas coisas.
Antes mesmo de sabermos quem somos, alguém nos olha, nos nomeia, nos acolhe, nos ensina o mundo. Descobrimos que somos bonitos, inteligentes, engraçados, difíceis, corajosos ou medrosos também através do olhar daqueles que convivem conosco.
É na relação que começamos a nos perceber. O outro funciona, muitas vezes, como um espelho. É através dele que vamos reconhecendo características, limites, possibilidades e também feridas que talvez não enxergássemos sozinhos.
Não nos tornamos quem somos apenas olhando para dentro. Mas chega um momento em que precisamos começar a perguntar:
Quem sou eu quando ninguém está olhando?
Essa talvez seja uma das passagens mais importantes do amadurecimento. Porque existe uma diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho.
Estar sozinho pode ser uma experiência de encontro. É quando podemos ouvir aquilo que pensamos sem a interferência imediata dos outros. Perceber o que desejamos. Elaborar uma experiência. Reconhecer uma dor. Fazer uma escolha que não dependa da aprovação de ninguém.
Há coisas que só conseguimos descobrir quando diminuímos o barulho ao redor.
Em uma vida cada vez mais conectada, isso pode ser especialmente difícil. Estamos constantemente expostos ao olhar do outro: mensagens, opiniões, imagens, comparações, expectativas. Muitas vezes, antes mesmo de sabermos o que pensamos, já estamos procurando saber o que os outros pensam. E, sem perceber, podemos passar muito tempo vivendo a partir de fora.
Por isso, aprender a caminhar sozinho não é aprender a não precisar de ninguém. É aprender a não se abandonar quando ninguém está por perto.
Mas existe também o movimento contrário.
No entanto, há quem transforme a independência em armadura: não pede ajuda, não divide dificuldades, não demonstra fragilidade, carregando tudo sozinho. Mas autonomia não é autossuficiência. Ser adulto é também saber quando pedir ajuda, confiar e dividir o peso. A pesquisa do Harvard Study of Adult Development demonstra a profunda ligação entre a qualidade dos nossos relacionamentos e nossa saúde, felicidade e bem-estar ao longo da vida, lembrando que o outro é parte intrínseca da nossa jornada. (Harvard Gazette)
Isso nos lembra de uma coisa importante: o outro não é apenas companhia. O outro também participa da maneira como atravessamos a vida. E talvez seja por isso que algumas pessoas tornam determinadas travessias mais possíveis.
Não porque caminhem por nós. Mas porque, ao caminhar ao nosso lado, tornam o caminho diferente.
É preciso pensar nisso também nas empresas. Passamos grande parte da vida trabalhando, dividindo projetos e prazos, muitas vezes com as mesmas pessoas. Mas estar cercado não significa estar acompanhado. É possível passar oito horas por dia em equipe e sentir-se profundamente sozinho, com consequências como burnout e menor satisfação profissional, como aponta uma revisão sistemática que reuniu 49 estudos (PubMed Central PMC). Por isso, ampliar a conversa sobre produtividade é essencial.
Falamos muito sobre competências, liderança, resultados, inovação e trabalho em equipe. Mas sabemos realmente caminhar juntos?
Trabalhar juntos vai além de apenas reunir pessoas. É criar condições para a confiança, a ajuda mútua, a discordância construtiva e o reconhecimento das singularidades. Pesquisas da Gallup.com reforçam a importância dos vínculos no trabalho: amizades significativas aumentam o engajamento e a confiança. Não se trata de transformar o trabalho em vida pessoal, mas de reconhecer que é uma experiência humana onde pessoas não funcionam isoladamente. A pergunta para as empresas deveria ser: (Gallup.com)
Que tipo de cultura estamos construindo quando estamos tão ocupados produzindo que já não temos tempo para conhecer as pessoas com quem produzimos?
Porque crescer juntos não significa crescer da mesma maneira.
Uma equipe saudável não é aquela em que todos pensam igual, sentem igual ou têm as mesmas habilidades. É aquela em que diferentes pessoas conseguem colocar suas singularidades a serviço de algo que compartilham.
Há espaço para o indivíduo e há espaço para o coletivo. Há momentos para falar e momentos para escutar. Há momentos para seguir sozinho e momentos para olhar para o lado e dizer: “Vem comigo.”
Talvez seja essa uma das grandes delicadezas da convivência: saber quando precisamos sustentar nossos próprios passos e quando precisamos oferecer o braço ao outro.
Nas travessias da vida, ninguém pode caminhar por nós. Nossas escolhas continuam sendo nossas. Nossas dores precisam, em algum momento, ser elaboradas por nós. Há portas que ninguém pode atravessar em nosso lugar. Mas isso não significa que precisamos atravessar tudo sozinhos.
Há pessoas que nos ajudam a enxergar o caminho. Há aquelas que nos sustentam quando tropeçamos. Há as que nos confrontam quando estamos fugindo de nós mesmos. E há aquelas que simplesmente permanecem ao nosso lado, sem tentar resolver aquilo que não pode ser resolvido.
Talvez seja isso que chamamos de companhia. Não alguém que faça a travessia por nós. Mas alguém que nos lembre, enquanto caminhamos, que não estamos sozinhos no mundo.
Amadurecer é justamente essa dupla experiência: saber estar consigo sem fugir do outro, e saber estar com o outro sem perder a si mesmo. Afinal, algumas partes do caminho exigem silêncio; outras só ganham sentido quando podemos olhar para o lado e perceber: há alguém caminhando comigo.
Até a próxima travessia.
Katya Di Pierro Terapeuta Integrativa, apaixonada pelo desenvolvimento humano e pelas histórias que transformam vidas.
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