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Por que você não tranca a porta? Eu te convido a se abrir para a terapia!

REDAÇÃO por REDAÇÃO
29/08/2024
em Colunistas
Tempo de Leitura: 7 minutos
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9
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Fernanda Carvalho*

Fernanda CarvalhoEra um final de semana ensolarado. Com um brilho especial. Ia passear de carro com minha mãe e uma amiga. Nesta época, não tínhamos carro. A amiga de minha mãe chegou em nossa casa no Bonfim, na Cidade Baixa, vestida de elegância. Balançando as chaves com ar de independência. Embarquei no banco de trás e me encantei mesmo foi com o mar que desfilava diante dos meus olhos enquanto subíamos a Avenida Contorno. Uma imensidão de água salgada transbordando no azul celeste do céu, sem uma nuvem sequer.

Eu desfrutava da paisagem quando fui fisgada pela conversa no banco da frente. A amiga de minha mãe se queixava do marido. Provedor, bom pai, homem honesto, trabalhador… mas com uma dose exagerada de ciúme que desandava todas as qualidades anteriores. Era capaz de cobrir o corpo dela com jornal na praia se avistasse um vendedor ambulante se aproximando do casal. O ciúme sempre fora sufocante, desde os tempos de namoro. Ela achava que ia melhorar…

Com anos de casada, ainda ouvia desaforos de sobremesa quando ousava sair para um chá da tarde com amigas. Hoje, de certo, seria recebida com cobranças pesadas quando voltasse para casa. Evitava tomar banho logo para escapar da acusação de que estava com amantes. Coitada, eu me solidarizava no alto dos meus sete anos. Abstraí das lamúrias pelos olhos, no êxtase de adentrar de novo no sentimento fundo de água salgada. Nós e a narrativa de sofrimento fomos abraçadas pela imagem do Cristo, de braços abertos. Aquele é o Farol da Barra, anunciou minha mãe.

O desabafo nos acompanhava. A relação era abusiva, e claro que eu ainda não sabia nada sobre isso.

– Carminha, a coisa que mais detesto é que alguém entre no banheiro quando estou usando. E ele faz isso sempre.

Tadinha. Por que ele faz isso?, me perguntava indignada e em silêncio, sabendo que levaria uma bronca daquelas se me intrometesse na conversa de adultos. Até que veio a melhor parte do diálogo.

– Eu levei esse assunto para a terapia. E a psicóloga perguntou: E por que você não tranca a porta?

Aquela pergunta silenciou todas as minhas inquietações naquele passeio, e em muitos outros momentos da vida. Foi ali que ouvi falar pela primeira vez de terapia. Na teoria. Porque, na prática, eu só fui fazer terapia depois de sobreviver a uma perda que atropelou minha alegria de viver. Eu tinha 21 anos e os melhores sonhos quando perdi o primeiro amor em um acidente.

Uma amiga, que sentiu todo meu pesar, sentenciou ainda no cemitério para minha mãe:

– Nanda vai precisar de terapia.

A primeira tentativa para sair do estado de choque foi com uma psiquiatra. Ela fazia perguntas e eu tentava respondercom gestos entrecortados por soluços. Sufocada pela dor, sem palavras. O choro convulsivo me impedia de dormir. Depois de medicada, eu não queria era mais acordar. A vida desandou. Perdeu o colorido e deu lugar a tantos traumas. Não passava pela Paralela, avenida onde ocorreu o acidente. Não comia mais cozido, uma de nossas comidas prediletas. Ficava indignada por ver todo mundo seguindo a vida. Eu me recusava a seguir. E era arrastada a contragosto pelos dias que insistiam em passar. Não conseguia me imaginar namorando, casando e sendo feliz. Mas esse sempre foi meu sonho!

Em meio a tanto sofrimento, a terapia era um lugar de refúgio. Aos poucos, fui aprendendo a nomear a dor, passar por ela, sem me permitir estacionar 

Foram anos de terapia e o tempo mais dourado da juventude me abstendo de um simples beijo na boca. Quando colegas de faculdade relembram bons momentos, eu não me vejo nas fotos. Estava lutando com toda intensidade contra o luto. Meus pais não sabiam lidar com minha dor. Hoje entendo a impotência que eles sentiam. Em meio a tanto sofrimento, a terapia era um lugar de refúgio. Aos poucos, fui aprendendo a nomear a dor, passar por ela, sem me permitir estacionar. Anos depois, o terapeuta se tornou marido e pai dos meus filhos, mas esse é um capítulo a parte que pode se tornar livro se um dia eu desejar escrever.

Corta para o retorno à terapia às vesperas do fim de um casamento de uma década aparentemente feliz. Foi uma crise profunda de depressão que me libertou. Meu caçula tinha apenas dois anos quando me vi sem forças para levantar da cama. Precisava dar conta de duas crianças, de duas empresas e não tinha energia nem para tomar banho. Cheguei ao ponto de recusar beber até água. Foi por insistência de minha mãe e irmã que aceitei procurar ajuda. Fazer terapia. O marido terapeuta bradou ao saber da minha decisão:

– Se você for fazer terapia, a gente vai acabar separando.

– Não entendi. Não é você quem diz que terapia não é para separar ninguém, mesmo quando atende casais em crise? Eu só quero ficar bem!,respondi.

Sustentei minha decisão e fui para a terapia.

– O que te dá prazer?, lembro da pergunta da psicóloga em uma das primeiras sessões

– Trabalhar.

– Ter tempo com minha família no final de semana.

– Ir ao centro.

A psicóloga continuou me futucando:

– O que te nutre tirando trabalho, família e religião?

Silenciei.

Todo mundo precisa de terapia. Porque todo mundo merece ficar bem e pode fazer do mundo um lugar melhor. Por isso, eu te convido a abrir essa porta!

Silenciei de novo tempos depois quando dirigia me arrastando para o trabalho na tentativa de escapar de mais uma crise de depressão. Tinha sido uma guerra sair da cama, tomar banho, encontrar uma roupa, enfrentar mais um dia de altas demandas com a energia no lodo. O congestionamento, associado às medicações, me fazia cochilar e bater, a uma velocidade mínima, no carro da frente. Liguei para o então marido quase pedindo socorro. Perguntei se ele me amava e ouvi um sonoro NÃO. A gente conversa quando chegar em casa, emendou.A resposta foi suficiente para eu começar a acordar.

Na cabeça de uma pessoa em estado depressivo que sempre se doou por completo para a família, aquele NÃO parecia o fim do mundo. E vinha de uma pessoa que sabia o deserto que eu estava enfrentando, sem um respingo de zelo. Por desespero, pensei em acelerar o carro até bater no carro da frente. Desta vez, de propósito. Consegui controlar o ímpeto e chegar no meu porto seguro. Desabei na casa de minha mãe. O desamor que eu ainda não enxergava já era percebido por todos. Agendei uma sessão de terapia para tarde e fui abraçada por minha psicóloga. Mergulhei fundo no seu olhar de mar.

– Você vai atravessar esse portal, ela me prometeu confiante ao fim da sessão.

Eu não conseguia enxergar nem portal, nem nada à frente. Só dor. Desamor. Desalento. Diferente da amiga de minha mãe, que não sabia trancar a porta, eu não estava sabendo abrir. Para sair de um relacionamento que só exigia de mim. Que não foi capaz de suportar meu momento de fragilidade, estar ao meu lado na depressão.

A leitura do livro Quem me roubou de mim, do padre Fábio de Melo, foi libertadora neste tempo. Para sustentar um casamento, eu tinha me ausentado de mim mesma, estava vivendo uma violência sutil que aflige muitas mulheres – o sequestro da nossa subjetividade. Vivia em cativeiro. E quando o sequestrador abriu a porta, me convidando a sair daquela relação, eu me sentia fragilizada, incapaz dedar um passo sequer sozinha, quem diriacuidar dos meus filhos evoltar a ser feliz.

Desde então, a terapia tem sido fundamental no meu auto resgate. Foi lá nas sessões que fui aprendendo o valor do NÃO, dos que recebo e dos que preciso dar, de preferência com amorosidade. Foi lá que fui despertando para o SIM que quero da vida, para os mais simples desejos. O primeiro deles foi reaprender a andar de bicicleta. Em um dos primeiros passeios no Parque de Pituaçu, avistei onde queria morar com meus filhos depois da separação. Eu moro no meu sonho hoje. E no meu simples apartamento cabe um novo amor. E uma relação banhada por respeito, cumplicidade e desafios naturais de quem decide compartilhar uma vida a dois.

Terapia para mim é processo de cura, de auto descoberta. Diante de uma gama de abordagens e ferramentas, é a sensibilidade do profissional que vai te conduzir a visitar vazios, dores, fraquezas e também redescobrir forças e potencialidades. Na terapia eu já me escutei de uma forma única, capturei o óbvio que estava no ponto cego da minha existência. Para quem não sabia contar gotas, aprendi a nadar. A ser mar. E já sai de lá sem chão, quase afogada, sem fôlego para voltar também. Faz parte… Às vezes, o valor da terapia é desfazer as nossas certezas.

Fico admirada com pessoas que, em poucas sessões, acham que resolveram a vida todinha. Minha necessidade é continua. Toda semana, quando a minha menina entra naquela casa verde esperança, atravessa aquele caminho com cheiro de jasmim e abrea porta, sei quepreciso estar pronta para desconstruir, olhar a minha vida de outro ângulo, de uma nova perspectiva, nem sempre confortável. Terapia é para quem tem coragem para encarar suas sombras, e também aumentaro brilho sem transbordar no ego. É para quem busca sentido para o que de bom e dolorido acontece na vida, para quem busca ressignificar o caminho tendo como meta o melhor para si e para quem está por perto.

Neste mundo adoecido em que ainda tem gente que acha que terapia é para loucos, eu faço terapia por necessidade de sobrevivência. Como bem dizia Chico Xavier, “Aos outros dou o direito de ser como são; a mim dou o dever de ser cada dia melhor”.

Todo mundo precisa de terapia. Porque todo mundo merece ficar bem e pode fazer do mundo um lugar melhor. Por isso, eu te convido a abrir essa porta!


*Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas.

E-mail: livroaluzdamaternidade@gmail.com

Instagram: @fernandacarvalho_cs

Tags: Fernanda Carvalho
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