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Capa Economia

ENTREVISTA: “Páscoa terá preços lá em cima e qualidade aquém do esperado”, diz especialista

Publisher por Publisher
09/03/2026
em Economia, Negócios
Tempo de Leitura: 5 minutos
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Marco Lessa, fundador do Brasil Origem Week e Chocolat Festival

Divulgação

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Com a proximidade da Páscoa, a economia brasileira já começa a viver uma nova onda de consumo impulsionada pelo período, especialmente no varejo. No entanto, a sensação do consumidor será de pagar mais caro por menos chocolate. É o que afirma um dos mais influentes nomes do ramo, Marco Lessa, fundador do Brasil Origem Week e Chocolat Festival, maior evento de cacau e chocolate das Américas.

O especialista aponta o cenário delicado que o setor enfrenta com a chamada “crise global do cacau”, com recordes históricos de preços, impactos climáticos e queda nas safras em países africanos, maiores produtores da matéria-prima. Como consequência, Lessa prevê mudança no comportamento do mercado e dos consumidores durante a época mais doce do ano. Veja na entrevista:

  1. A Páscoa é o período mais importante para o setor de chocolates. Qual é o impacto dessa sazonalidade na economia?

M.L: Resposta: A Páscoa começa quase um ano antes, quando as empresas de chocolate desenvolvem as suas formulações, reeditam os seus produtos, desenvolvem embalagens e composição. Portanto, para muitas empresas de todos os portes – pequenas, médias e grandes – a Páscoa começa com muita antecedência. Naturalmente se tem um setor de pequenos e micro empreendedores e agricultores familiares que desenvolvem produtos, e muitos deles fazem os seus ovos, tabletes, bombons a partir da amêndoa de cacau, e claro que isso tem um impacto maior, sem levar em consideração os outros produtos da época, como o peixe, o bacalhau, azeite, entre outros. Mas falando especificamente do chocolate, é evidente que há um aumento significativo de consumo, sendo a Páscoa o principal período do ano de consumo de chocolate, seguido do Natal.

  1. O preço do cacau disparou nos últimos meses. Como o cenário internacional desse ingrediente impacta o mercado brasileiro?

M.L.: O cacau é uma commodity, portanto, depende de fatores externos, alheios à vontade do produtor. Os principais produtores hoje estão na África, a produção depende de fatores climáticos e isso interfere naturalmente no preço e nessa oscilação. A África viveu problemas climáticos, produção baixa e lavouras antigas. Tudo isso impactou uma produção menor e um aumento do preço. No Brasil, a situação é muito peculiar: vivemos num país que, apesar de ser produtor, é deficitário na produção de cacau. Ou seja, ele produz menos do que consome, menos do que utiliza para mover as três principais indústrias de moagem do Brasil, que representam 95% da moagem brasileira. Por se tratar de uma commodity, não aproveitamos essa condição. E o que acontece? Compramos cacau da África que, muitas vezes, não tem a devida fiscalização. Naturalmente, quando se aumenta o preço do cacau pela commodity – o que vem acontecendo desde o ano passado – há um impacto lá na ponta, na entrega, em quem produz o chocolate, tanto no consumidor final quanto em quem transforma, em todos os aspectos.

  1. Na prática, o chocolate terá um aumento considerável nesta Páscoa? Como isso deve afetar o comportamento do consumidor?

M.L.: Sim. Especialmente em um país de classe média, como o nosso, as pessoas costumam migrar para produtos mais baratos, consumir menos produtos ou versões menores. O ovo de 1 kg vai virar 500g, o de 500g vai virar 300g. A Páscoa tem uma particularidade: muitas vezes, o brinquedo que está dentro do ovo deixa o produto mais caro do que o próprio chocolate. É claro que a indústria vai ser criativa. Vão surgir mais ovos pela metade recheados, vão ter outros ingredientes, vão ter ovos menores, uma embalagem diferente… tudo isso vai buscar um equilíbrio para que não interfira no preço. Eu prevejo uma Páscoa mais cara e com ovos menores, em que as pessoas vão migrar no perfil de consumo. Mas é importante salientar: a partir do momento que uma pessoa consome chocolate de qualidade, com alto teor de cacau, há muita dificuldade de voltar para um chocolate comum de mercado.

  1. Como esse pico histórico nos preços impacta diretamente os produtores?

M.L.: O cacau se estabilizou nos últimos 15 anos numa faixa de $2.500 a $3.000 dólares a tonelada. Em certo período no ano passado, ele chegou a $12.000 dólares a tonelada, o que entusiasmou bastante o mercado. Mas o preço da commodity é insuficiente para um padrão de qualidade de vida para o produtor rural, que 98% são micro, pequenos, produtores e agricultores familiares. Portanto, é um risco muito grande para o produtor de cacau um preço tão baixo, porque ele não sustenta a sua lavoura, os custos são muito altos, de mão de obra, de insumos, de combate à pragas, como também é uma ilusão, um valor de 10, 12 mil dólares a tonelada.

É importante pensar a cacauicultura para daqui há algumas décadas. É necessário planejar e principalmente preparar o consumo para um produto que ainda tenha essa autenticidade, essa qualidade que é o chocolate com alto teor de cacau e outros coprodutos do cacau. E na contramão da indústria que tem oferecido ao mercado um chocolate sabor artificial de cacau, um produto que é de péssima qualidade e o pior: faz muito mal a saúde.

  1. O Chocolat Festival nasceu na Bahia e hoje é referência na América Latina. Qual o papel estratégico do evento na consolidação do Brasil como destino internacional do chocolate e do turismo de experiência?

M.L.: Antes de falar sobre o Chocolat Festival, quero trazer um panorama da situação em que ele foi criado: Cheguei em Ilhéus em 1988, vivi o momento da vassoura-de-bruxa e todo o processo de crise, de destruição, onde a região foi ao fundo do poço: dívidas, pragas e fazendas abandonadas. O que eu pude contribuir enquanto cidadão e um agente do setor produtivo na área de eventos e marketing foi tentar estimular a verticalização e a agregação de valor, de maneira que essa transformação não fosse apenas pontual e que ela não fosse a curto prazo.

Surge então, em 2009, o Chocolat Festival, que transformou a cadeia produtiva do cacau e chocolate na Bahia e no Brasil, com efeitos no mundo, através da vinda de grandes nomes da chocolateria, chefs de cozinha, jornalistas, produtores e fizemos um trabalho muito cuidadoso em todos os aspectos para que isso impactasse e mudasse a vida das pessoas. A maior razão do Chocolate Festival foi transformar a vida dessas pessoas, esses pequenos produtores, agricultores familiares, dessas famílias, desses homens, mulheres, jovens que sofriam tanto no campo como na cidade, que impactou também na vida urbana e também no consumo. Nós queríamos que o consumidor tivesse a percepção que o cacau não é coadjuvante, o cacau é protagonista. Chocolate existe porque existe cacau.

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