Por Silvia Rezende, psicóloga**
Os dados da pesquisa Carreira dos Sonhos 2025 deveriam provocar mais do que manchetes: deveriam provocar reflexão. Nada menos que 53% dos profissionais brasileiros já mudaram ou pretendem mudar de emprego, impulsionados por salário e pela tentativa de resgatar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Entre mais de 73 mil respondentes, o retrato é claro: há uma insatisfação crescente, especialmente entre jovens que enfrentam jornadas exaustivas, pressão contínua e ansiedade como companheira de expediente.
Essa não é apenas uma crise corporativa; é uma crise de saúde pública. Desde 2019, a OMS reconhece o burnout como síndrome ocupacional, e no Brasil ele se espalha como fogo em palha seca. O jovem de 25 anos que troca de emprego a cada dois anos em busca de um salário melhor pode estar, sem perceber, acumulando ansiedade crônica, distorções cognitivas e padrões de pensamento autossabotadores. A consequência aparece em queda de produtividade, absenteísmo e, em casos mais graves, depressão e riscos cardiovasculares.
O SUS observa um crescimento de 30% nos atendimentos por transtornos ansiosos desde a pandemia, incluindo muitos casos ligados ao contexto profissional. A Reforma Trabalhista de 2017 trouxe mais flexibilidade aos vínculos de trabalho, mas ainda existem desafios: a ausência de regulamentação clara para o home office, jornadas que por vezes ultrapassam o ideal e limites cada vez mais sutis entre vida pessoal e profissional. Nesse cenário, empresas buscam equilibrar o alcance de metas com o bem-estar das equipes.
A Terapia Cognitiva-Comportamental oferece uma lente valiosa para entender esse fenômeno. A TCC mostra que pensamentos moldam emoções e comportamentos. Quando o ambiente de trabalho reforça crenças como “preciso ser perfeito”, “não posso falhar” ou “se eu descansar, serei substituído”, instala-se um ciclo de estresse que se retroalimenta. A mudança de emprego, nesse contexto, funciona como alívio momentâneo — mas não resolve o padrão mental que mantém o sofrimento. É a famosa “roda de hamster”: muito movimento, pouco avanço.
Isso não significa responsabilizar o indivíduo por um problema estrutural. Pelo contrário: significa reconhecer que políticas públicas e práticas empresariais precisam mudar. Empresas devem implementar programas de bem-estar baseados em evidências, como triagem de burnout, flexibilização real de horários e treinamentos sobre manejo de estresse. Governos precisam regulamentar o trabalho remoto, estabelecer limites claros de jornada e exigir avaliações psicossociais periódicas.
Aos profissionais, cabe um passo igualmente importante: desenvolver autoconhecimento. A TCC ensina que identificar pensamentos distorcidos para não cair em armadilhas criadas pela própria pessoa, praticar pausas, estabelecer limites e buscar terapia não são sinais de fraqueza, mas estratégias de preservação. Em um país onde trabalhar é sinônimo de sobreviver, cuidar da saúde mental é um ato de resistência.
A pesquisa Carreira dos Sonhos revela que o sonho coletivo virou pesadelo. Mas pesadelos também são alertas. Está na hora de acordar para o fato de que saúde mental no trabalho não é custo — é investimento. Sem ela, perdemos talentos, produtividade e, no limite, vidas.
**Silvia Rezende é graduada em Pedagogia e Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Silvia possui especialização em Terapia Comportamental Cognitiva em saúde mental pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Ela é a coordenadora técnica da Clínica de Psicologia LARES e professora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Silvia atua também como psicóloga colaboradora no IPQ HC FMUSP e no Programa de Psiquiatria Social e Cultural (PROSOL), um grupo do Instituto de Psiquiatria da FMUSP.
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