Como obstetra, tenho o privilégio de acompanhar o início de uma das jornadas mais profundas da experiência humana: a maternidade. No consultório, durante o pré-natal, o foco é integralmente dividido entre a gestante e o bebê. No entanto, com o nascimento, testemunho uma mudança sutil e quase imediata de comportamento. A mulher, antes tão atenta aos próprios exames e sintomas, gradualmente se coloca em segundo plano. O olhar, compreensivelmente, volta-se por inteiro para o recém-nascido, dando início a um ciclo de autonegligência que muitas vezes se estende por anos.
O Dia das Mães é um momento de celebração, mas também nos convida a uma reflexão clínica e social sobre o preço invisível desse cuidado constante. A rotina materna é frequentemente marcada pelo acúmulo de funções, onde o gerenciamento do lar, a carreira e a criação dos filhos consomem a totalidade das horas diárias. Nessa matemática implacável, a primeira atividade cancelada costuma ser a consulta preventiva, a prática de exercícios ou a noite de sono reparadora. O sacrifício pessoal é socialmente romantizado, mas a medicina nos mostra que o cansaço crônico e o estresse prolongado cobram uma fatura alta na saúde física e mental da mulher.
Do ponto de vista médico, a negligência com exames de rotina, a alimentação desequilibrada e o sedentarismo pavimentam o caminho para o surgimento de problemas cardiovasculares, distúrbios hormonais e exaustão extrema. É preciso desmistificar a ideia de que o autocuidado é um ato de egoísmo. Pelo contrário, a saúde da mãe é o alicerce de toda a estrutura familiar. Uma mulher sobrecarregada e doente terá mais dificuldades para exercer o cuidado que tanto deseja oferecer. Cuidar de si mesma é, em última análise, um ato de responsabilidade com as pessoas que dependem dela.
O maior presente que uma mãe pode receber, e se dar, é o resgate de sua própria individualidade e saúde. Isso começa com pequenas concessões diárias, como delegar tarefas, aceitar redes de apoio e priorizar as consultas médicas anuais. Afinal, a maternidade deve ser vivida com plenitude e vitalidade, não como um processo de anulação pessoal. Que esta data sirva como um lembrete de que, para sustentar o bem-estar de quem amamos, precisamos primeiro garantir que o nosso próprio coração e corpo estejam fortes e acolhidos.
Beatrice Facundo Garcia Carneiro
Médica Ginecologista e Obstetra da Clínica SiM
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