Tem uma lágrima engordando em mim. E não tem mounjaro que resolva. Aperto foi a palavra que escolhi no início da vivência de Arteterapia quando uma linha salgada quase escapulia pelos olhos. O encontro remoto foi inspirado no livro A Moca Tecelã, de Marina Colassanti. Já conhecia o texto, mas a literatura é sempre capaz de nos rasgar de um jeito diferente.
As palavras tecidas pela voz suave da arteterapeuta Maria Tereza Oliveira me fizeram revisitar a vida ponto a ponto. Já fui a mulher que teceu e entristeceu sem perceber. Costurei sonhos alheios acreditando que também eram meus. Apertava bem cada arremate na esperança de manter o traçado seguro. Despedaçada, tive que aprender a segurar a lançadeira ao contrário. Desfazer as expectativas. Desconstruir palácios que só existiram na fantasia.
Concluída a leitura, o convite era para o bordado livre. Não tenho habilidade com costura. A mulher que sonha conquistar o mundo não sabe pregar um botão. Falhei na atividade prévia de selecionar retalhos que fizeram parte da minha história. Os recortes de pano, variadas linhas e materiais que tinha em mãos, uma amiga generosa providenciou para mim. Segurei a agulha fingindo costume e escolhi um fio multicor. Nem sabia que existia um só com cores intercaladas!
Orgulhosa por ter conseguido enfiar a linha na agulha de primeira, furei o centro do retalho de feltro rosa – de baixo para cima – e fui fazendo alinhavos longos. Primeiro para o sul. Voltei para o centro. Titubeei para onde apontar o delicado traço. Rumei na direção leste. E, nos primeiros zig zags, consegui me emaranhar em um nó. Tentei desatar em vão. Tem nó que insiste, mesmo quando percorremos alinhavos previsíveis dos pontos cardeais. Abortei o desejo inconsciente de construir uma mandala com a linha. Quem me conhece sabe a dicotomia das mandalas. Símbolo de integração e harmonia, são até bonitas, mas me fazem lembrar pessoas que aparentam o que não são… Tenho vontade de mandá-las à merda.
Foca no bordado livre. Livre da simetria, do ideal de perfeição. Na Arteterapia, o compromisso não é com a estética. Muito menos no avesso, que simboliza o inconsciente, a nossa verdade interna. As dores silenciadas nos bastidores da vida. Costurando novos sentidos, mudei a direção, subi e desci a agulha como bem entendia. Tecer novos caminhos é tudo que quero fazer. Segui costurando sem descanso, até a façanha de prender a agulha e as duas pontas da linha multicor no tecido. O jeito foi cortar e deixar mais duas pontas à mostra.
Com a tesoura cega, tentei fatiar um retalho da chita florida. Já ia escolher outra linha, quando veio o desejo de deixar a agulha quieta. O nada me subiu ao corpo. Pausei. A lágrima, finalmente, correu livre trazendo alívio. Longe da expectativa do traçado perfeito, meu bordado hoje é o avesso que um dia tentei esconder. Entre nós, linhas soltas, remendos emaranhados, assumo minha vulnerabilidade. E busco coragem para destecer relacionamentos, comportamentos, idealizações, lugares que não me cabem mais. Meu tecer agora pede pausa e ânimo para refazer o caminho, mesmo quando não entendo nada sobre o processo.
No bordado da vida, escolho o fio dourado para chamar o sol nos dias mais nublados e força para romper com as linhas invisíveis que ainda tentam me conter. Que a gente nunca perca o delicado traço de luz que as manhãs repetem no horizonte para tecer e destecer quantas vezes forem necessárias. Sem esquecer que somos livres para descansar a agulha. E que o avesso pode ser o lado mais perfeito!
Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora dos Livros A Luz da Maternidade e Entre Bolhas e Marés.
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