A corrida global por minerais estratégicos já começa a redesenhar o mapa da mineração na Bahia. O estado reúne 1.204 processos minerários ativos relacionados a terras raras, equivalentes a 31% dos registros brasileiros, segundo levantamento do Intercept Brasil elaborado a partir de dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). Mais da metade desses processos está concentrada no Vale do Jiquiriçá.
A região é marcada por forte presença da agricultura familiar. Cerca de 20 mil famílias desenvolvem atividades rurais no território, o que coloca lado a lado dois modelos econômicos com características bastante diferentes: a produção agropecuária familiar já estabelecida e uma nova fronteira mineral voltada a matérias-primas consideradas estratégicas para setores de alta tecnologia e para a transição energética.
Entre as empresas que avançam na região está a Brazilian Rare Earths (BRE), companhia listada na bolsa australiana. A empresa possui 230 requerimentos relacionados às terras raras na Bahia, equivalentes a aproximadamente 19,1% dos processos ativos desse tipo no estado.
Empresa afirma controlar 167,6 mil hectares
A Brazilian Rare Earths informa controlar aproximadamente 167,6 mil hectares na região, onde mantém pesquisas minerárias autorizadas pela ANM.
O ativo mais avançado é o Projeto Monte Alto, localizado na região de Ubaíra e Irajuba e já relacionado pela ANM entre os principais projetos brasileiros de terras raras.
Os resultados geológicos divulgados pela companhia ajudam a explicar o interesse pelo depósito.
A BRE informa que a mineralização principal de Monte Alto apresenta teor médio de 11,3% de óxidos totais de terras raras (TREO). A companhia já reportou, em determinados resultados de exploração, teores ainda mais elevados.
Reportagem do Intercept, baseada em dados divulgados pela própria mineradora, aponta que determinadas concentrações encontradas na região podem chegar a cerca de 100 vezes as observadas na Serra Verde, em Goiás, atualmente a única operação comercial brasileira dedicada às terras raras.
Essa comparação, porém, precisa ser interpretada com cautela: teor mineral elevado não significa automaticamente uma mina economicamente viável. Custos de extração e processamento, recuperação metalúrgica, infraestrutura, preços internacionais, licenciamento e escala das reservas também determinam a viabilidade de um empreendimento.
ANM já autorizou lavra experimental
O projeto alcançou uma nova etapa regulatória em março deste ano.
A ANM concedeu uma Guia de Utilização para Monte Alto, permitindo a extração experimental de até 2 mil toneladas por ano. Segundo a empresa, o material poderá ser utilizado em testes metalúrgicos e na produção de lotes destinados a potenciais clientes.
A autorização, entretanto, não equivale a uma concessão definitiva para mineração comercial.
A própria Brazilian Rare Earths informou que a extração experimental ainda não começou e depende das autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis.
O licenciamento da futura operação comercial deverá passar pelo Ibama. Segundo o órgão informou ao Intercept, o Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental — EIA/Rima — ainda não haviam sido apresentados.
O projeto também está sob análise da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), em razão da presença de materiais radioativos associados à mineralização. O processo encontra-se em fase inicial de avaliação regulatória.
Projeto também possui urânio associado à mineralização
Monte Alto não contém apenas elementos de terras raras.
Resultados divulgados pela companhia também identificaram nióbio, escândio, tântalo e urânio associados aos depósitos.
A presença de urânio adiciona uma camada regulatória ao empreendimento e explica a participação da autoridade nuclear no processo.
A empresa sustenta que Monte Alto não é uma mina dedicada à produção de urânio e que não haverá enriquecimento ou processamento químico do elemento no local da mina.
Produção comercial é projetada para a próxima década
O estágio atual do projeto ainda está distante de uma mina comercial em funcionamento.
O estudo preliminar divulgado pela BRE em agosto estabelece 2031 como referência para o início da produção, caso o projeto avance conforme as premissas consideradas pela companhia.
A mineradora trabalha paralelamente no desenvolvimento de estudos técnicos e no processo de licenciamento.
Isso significa que existe uma diferença fundamental entre três situações:
pesquisa mineral, que busca dimensionar e caracterizar o depósito;
lavra experimental, autorizada em escala limitada para testes;
e produção comercial, que depende de uma sequência de estudos, licenças e autorizações ainda não concluída.
Portanto, embora a corrida pelas terras raras já esteja produzindo efeitos sobre a pesquisa mineral e a disputa por áreas na Bahia, Monte Alto ainda não é uma mina comercial em operação.
Camaçari poderá integrar a cadeia de processamento
A estratégia da Brazilian Rare Earths não termina no Vale do Jiquiriçá.
O projeto apresentado pela companhia prevê um modelo integrado no qual o minério extraído em Monte Alto seria inicialmente beneficiado na área da mina e depois transportado para Camaçari, aproximadamente 260 quilômetros distante, para processamento e separação dos elementos.
A empresa argumenta que o Polo Industrial de Camaçari oferece infraestrutura, logística, fornecedores de produtos químicos, serviços industriais e mão de obra especializada.
Se concretizado, esse modelo poderia criar uma cadeia que ultrapassaria a simples extração mineral e incorporaria etapas industriais de maior valor agregado dentro da Bahia.
Mas essa possibilidade ainda depende da implantação comercial do projeto.
Terras raras são estratégicas para a indústria tecnológica
O interesse crescente nesses minerais está relacionado às suas aplicações industriais.
Elementos de terras raras são utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, fundamentais para motores elétricos, turbinas eólicas e diversos equipamentos eletrônicos, além de aplicações nos setores aeroespacial, de defesa e de alta tecnologia.
O Brasil possui potencial geológico significativo, mas ainda ocupa posição pequena na produção global.
A própria ANM registra que a operação de Pela Ema, da Serra Verde, em Minaçu (GO), iniciou produção no fim de 2023 e se tornou a principal referência comercial brasileira no segmento.
Por isso, projetos como Monte Alto são acompanhados não apenas pelo setor de mineração, mas também por investidores e governos interessados na diversificação das cadeias internacionais de minerais críticos.
Agricultura familiar aumenta complexidade do debate
No Vale do Jiquiriçá, entretanto, a discussão não é exclusivamente mineral.
A concentração de projetos ocorre em um território caracterizado pela agricultura familiar e por comunidades rurais.
A própria política estadual de desenvolvimento rural inclui o Vale do Jiquiriçá entre as regiões atendidas pelo Projeto Parceiros da Mata, voltado ao fortalecimento produtivo e ao desenvolvimento sustentável das comunidades rurais.
Reportagens também registraram preocupações de moradores de Monte Alto relacionadas às negociações fundiárias e aos possíveis impactos do projeto. Um manifesto teria sido assinado por 104 das 117 famílias da comunidade, com críticas à condução das negociações e pedidos de maior transparência. A informação deriva dos relatos reunidos na investigação jornalística e deve ser tratada como posição das comunidades envolvidas, não como conclusão administrativa ou judicial sobre a atuação da empresa.
Essa sobreposição transforma o projeto em uma discussão que vai além da geologia.
Bahia enfrenta oportunidade e desafio
Os números mostram que a Bahia está se tornando uma das principais fronteiras brasileiras das terras raras.
Ter 31% dos processos minerários ativos do país relacionados a esses elementos coloca o estado em posição estratégica diante de uma cadeia mineral que ganhou relevância econômica e geopolítica mundial.
Mas processos minerários não significam reservas comprovadas, minas implantadas ou produção garantida.
Entre a identificação de uma ocorrência mineral e a operação comercial existem anos de pesquisa, estudos econômicos, licenciamento ambiental, autorizações regulatórias, investimentos e negociação com proprietários e comunidades.
Para a Bahia, portanto, o desafio não será apenas confirmar o tamanho de suas reservas.
Será decidir quanto dessa riqueza poderá ser transformada dentro do próprio estado, qual parcela de valor permanecerá na economia baiana e como a expansão mineral poderá conviver com agricultura familiar, recursos hídricos, comunidades e áreas ambientalmente sensíveis.
É nessa combinação entre potencial geológico, industrialização, regulação ambiental e desenvolvimento territorial que estará o verdadeiro valor estratégico das terras raras para a Bahia.
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