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Ao aceitar o convite para escrever sobre saúde mental, pensei bastante em qual seria o melhor tema para o nosso primeiro encontro. Poderíamos começar falando sobre ansiedade, estresse, relacionamentos ou autoestima. Mas percebi que, antes de qualquer assunto, fazia sentido apresentar a você a forma como enxergo o ser humano e a própria vida.
E, para isso, preciso começar pela minha história.
Ao longo da vida fui massoterapeuta, atravessei o desafio de estudar Psicologia Social e Organizacional na França, tornei-me mãe educadora, professora de francês, aromaterapeuta e, hoje, atuo como terapeuta integrativa. À primeira vista, essas experiências podem parecer desconectadas. Mas afinal, o que elas têm em comum?
Durante muito tempo, eu mesma poderia ter respondido: muito pouco. E receio que demorei um pouco para entender.
Hoje, porém, enxergo algo diferente. Todas essas experiências fizeram parte da mesma construção. Cada uma delas me transformou, ampliou meu olhar sobre as pessoas e me ensinou que o ser humano está sempre em processo. Não somos uma obra pronta; somos uma história sendo escrita.
Foi essa caminhada que me ensinou uma das lições mais importantes que carrego comigo: a vida não acontece entre uma fase e outra; ela acontece exatamente durante as travessias.
Quantas vezes adiamos a vida esperando que “essa fase passe”? Dizemos a nós mesmos: quando eu terminar a faculdade… quando conseguir um emprego melhor… quando meus filhos crescerem… quando eu tiver mais tempo… Vivemos como se a felicidade estivesse sempre na próxima estação. Enquanto isso, deixamos de perceber que a vida acontece justamente agora, no meio das mudanças, das dúvidas, das perdas, dos recomeços e das escolhas que fazemos todos os dias.
Talvez seja por isso que as palavras do psiquiatra Viktor Frankl atravessem tantas gerações: “Quando já não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.”
Nem sempre podemos escolher as circunstâncias que encontramos pelo caminho. Há perdas que não evitamos, crises que não planejamos e mudanças que simplesmente chegam. Mas existe uma liberdade que ninguém pode viver por nós: a de escolher como responderemos ao que a vida nos apresenta.
Essa resposta não acontece de uma única vez. Ela é construída na responsabilidade concreta de cada dia. Na conversa que decidimos ter. No pedido de desculpas que finalmente fazemos. No limite que aprendemos a estabelecer. Na coragem de pedir ajuda. Na disposição de rever uma crença antiga. Na decisão de cuidar do corpo, das emoções e das relações.
Ao longo da minha prática clínica, aprendi que saúde mental não significa viver sem sofrimento. Significa desenvolver recursos para atravessá-lo sem perder de vista quem somos e quem desejamos nos tornar. Significa compreender que amadurecer não é deixar de sentir, mas aprender a dar sentido ao que sentimos.
É esse olhar que desejo compartilhar nesta coluna. A cada quinzena, quero conversar com você sobre temas que fazem parte da vida de todos nós: emoções, família, trabalho, perdas, escolhas, propósito, relações e tantos outros assuntos que atravessam nossa existência. Não para oferecer fórmulas prontas, mas para construir um espaço de reflexão, onde possamos compreender melhor nossa própria história e descobrir que pequenas mudanças, sustentadas no cotidiano, têm o poder de transformar uma vida inteira.
Se, ao final de cada texto, você se permitir fazer uma pergunta nova sobre si mesmo, esta coluna já terá cumprido seu propósito.
Que este seja apenas o início da nossa caminhada.
Até a próxima travessia.
Katya Di Pierro – Terapeuta Integrativa e Aromaterapeuta
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