O tratamento do câncer de mama pode terminar, mas algumas de suas consequências permanecem na vida das pacientes mesmo depois da remissão. Alterações hormonais, ressecamento vaginal, dor durante as relações sexuais, redução da libido e sintomas urinários estão entre os problemas que podem comprometer a saúde íntima e a qualidade de vida durante e após o tratamento.
É nesse campo que a cientista baiana Patrícia Lordêlo, fisioterapeuta pélvica, professora e pesquisadora especializada em Saúde da Mulher, desenvolve estudos voltados à reabilitação de mulheres que enfrentaram a doença.
A trajetória científica ganhou também uma dimensão pessoal depois que a própria pesquisadora recebeu o diagnóstico de câncer de mama. A experiência reforçou seu interesse por um aspecto que, segundo ela, ainda recebe pouca atenção no acompanhamento das pacientes: as repercussões do tratamento sobre a saúde pélvica e a sexualidade.
Tratamento pode provocar alterações semelhantes às da menopausa
Segundo Patrícia, tratamentos como quimioterapia e hormonioterapia podem provocar alterações na mucosa vaginal e sintomas semelhantes aos encontrados na menopausa.
Em determinadas pacientes, o uso prolongado de bloqueadores hormonais pode estar associado à atrofia vaginal e, em casos mais acentuados, ao estreitamento do canal vaginal, conhecido como estenose.
As consequências não se limitam à atividade sexual. Alterações dessa natureza podem provocar desconforto, interferir na realização de exames ginecológicos e comprometer diferentes aspectos da qualidade de vida.
O problema apresenta um desafio adicional: pacientes que passaram por determinados tipos de câncer de mama podem ter restrições ao uso de terapias hormonais, tornando relevante a investigação de alternativas não hormonais para aliviar os sintomas.
Pesquisa estuda LED azul intravaginal
Desde 2019, Patrícia Lordêlo e sua equipe pesquisam alternativas não hormonais para essas disfunções.
Uma das tecnologias investigadas é um dispositivo de LED azul intravaginal, idealizado e desenvolvido pelo grupo.
“Estudos já realizados com mulheres que passaram pelo tratamento do câncer de mama apontaram melhora da lubrificação e do conforto vaginal. A próxima etapa da pesquisa deverá investigar o uso da tecnologia durante o próprio tratamento contra o câncer, inclusive com possibilidade de aplicação no domicílio”, afirma Patrícia.
Os resultados relatados pela pesquisadora são promissores, mas precisam ser compreendidos dentro do contexto científico em que estão inseridos: trata-se de uma tecnologia em investigação, e os estudos sobre sua utilização não significam que o dispositivo substitua tratamentos médicos ou esteja indicado indiscriminadamente para pacientes com câncer de mama.
Trabalho recebeu prêmio internacional
Em 2022, uma pesquisa liderada por Patrícia recebeu reconhecimento durante o ICS Annual Meeting, congresso da International Continence Society, realizado em Viena.
O trabalho sobre a utilização do LED no tratamento da Síndrome Geniturinária da Menopausa em sobreviventes do câncer de mama recebeu prêmio na área de tratamento conservador.
A síndrome pode envolver sintomas genitais, sexuais e urinários associados às alterações dos tecidos provocadas pela redução dos níveis hormonais.
No caso das sobreviventes do câncer de mama, a abordagem ganha complexidade justamente porque a história oncológica de cada paciente precisa ser considerada na definição das alternativas terapêuticas.
Disfunção sexual atinge parcela expressiva das sobreviventes
A dimensão do problema também aparece na literatura científica.
Uma revisão publicada em 2026, que reuniu 36 estudos e 9.749 sobreviventes do câncer de mama, estimou prevalência de aproximadamente 70% de disfunção sexual entre as mulheres avaliadas.
O percentual não significa que 70% de todas as sobreviventes de câncer de mama necessariamente desenvolverão o problema, nem representa a prevalência de todas as disfunções do assoalho pélvico. O resultado reúne populações e estudos diferentes, mas evidencia a relevância de uma questão que pode permanecer em segundo plano diante da prioridade inicial de combater o câncer.
“A fisioterapia pélvica pode integrar o cuidado multidisciplinar e contribuir para a reabilitação dessas pacientes, especialmente diante de sintomas que impactam diretamente a intimidade, a autoestima e a qualidade de vida”, afirma Patrícia Lordêlo.
Sobreviver ao câncer e recuperar qualidade de vida
A discussão reflete uma transformação importante no cuidado oncológico.
O aumento da sobrevivência ao câncer faz com que a medicina e outras áreas da saúde precisem olhar não apenas para o controle da doença, mas também para as consequências físicas e emocionais deixadas pelo tratamento.
Nesse contexto, sexualidade, função urinária, saúde vaginal, imagem corporal e relacionamentos passam a integrar uma concepção mais ampla de reabilitação.
Isso não reduz a prioridade do tratamento oncológico. Ao contrário: amplia o conceito de sucesso terapêutico, incorporando a preocupação com como a paciente viverá depois e durante o enfrentamento da doença.
Experiência pessoal será relatada em autobiografia
A experiência de Patrícia com o câncer e sua trajetória como pesquisadora deram origem ao livro “Inteira: Uma história real de corpo, intimidade, ciência, espiritualidade e reconstrução”.
A autobiografia será lançada durante o Outubro Rosa, em Salvador, e terá a renda integralmente destinada a novas pesquisas na área.
“Quando vivi o câncer de mama, passei a compreender também, na própria pele, questões que já faziam parte da minha trajetória profissional. Percebi o quanto a saúde pélvica e a sexualidade ainda são pouco discutidas durante e depois do tratamento. Transformar essa experiência em pesquisa e conhecimento é uma forma de ressignificar o que vivi e contribuir para que outras mulheres tenham acesso a um cuidado mais completo”, ressalta a pesquisadora.
O livro tem prefácio da atriz e apresentadora Regina Casé, que acompanhou Patrícia durante parte de seu tratamento.
O lançamento será realizado em 18 de outubro, às 10h, no Gabinete Português de Leitura de Salvador. A escolha do local também está relacionada à ligação da pesquisadora com Portugal, país onde divide parte de sua rotina entre consultas, estudos e atividades de docência.
A obra será disponibilizada em versões impressa e digital.
Serviço — Lançamento do livro “Inteira”
Autora: Patrícia Lordêlo
Data: 18 de outubro de 2026
Horário: 10h
Local: Gabinete Português de Leitura de Salvador
Obra: versões impressa e digital
Destinação da renda: financiamento de novas pesquisas na área
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