Com uma produção de aproximadamente 980 mil toneladas de pluma na safra 2025/2026, a Bahia alcançou um volume superior ao da Austrália e se aproxima do Paquistão, reforçando sua posição entre os grandes polos produtores de algodão do mundo. O avanço, entretanto, traz novos desafios relacionados à qualidade da fibra, logística, clima, custos e maior integração entre produtores e indústria têxtil.
O cenário foi discutido durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), realizado nesta semana em Belo Horizonte (MG). Na quarta-feira (23), a presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra Zanotto Costa, participou da plenária “O algodão brasileiro no tabuleiro global: perspectivas e estratégias para a safra 2026/2027”.
Também participaram o CEO da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato, e o diretor do Grupo BDM, Alexandre de Marco. O painel foi conduzido por André Pessoa, CEO da Agroconsult.
Os dados apresentados durante a discussão mostram que o crescimento da Bahia ocorre paralelamente à consolidação do Brasil como um dos principais fornecedores mundiais da fibra. O país superou os Estados Unidos nas exportações nas duas últimas safras e, no ciclo encerrado em julho, embarcou um volume 27% superior ao do segundo maior exportador mundial, segundo os números apresentados no painel.
Além do crescimento em volume, a oferta brasileira tornou-se menos sazonal, permitindo presença mais constante no mercado internacional.
Geopolítica passa a influenciar decisões dentro da fazenda
O novo tamanho da cotonicultura brasileira também aumenta sua exposição às transformações da economia internacional.
Conflitos geopolíticos, oscilações no preço do petróleo, fertilizantes, energia e fibras sintéticas passaram a integrar de maneira mais intensa o planejamento dos produtores.
“Cada vez mais, precisamos olhar além da porteira”, afirmou Alessandra Zanotto.
O petróleo exemplifica a complexidade dessa relação. Sua valorização pode elevar os custos da atividade agrícola, inclusive por meio dos fertilizantes, mas também encarece a produção do poliéster, principal concorrente do algodão no mercado mundial de fibras.
Existe ainda o efeito sobre os países compradores. Bangladesh e Paquistão, mercados relevantes para o algodão brasileiro, possuem indústrias têxteis expostas aos custos de energia. Alterações significativas nesses custos podem influenciar sua competitividade e, consequentemente, a demanda pela fibra.
Nesse ambiente, a presidente da Abapa defendeu a diversificação dos mercados compradores e o acompanhamento das relações comerciais internacionais.
“Além da alta eficiência em produção e de o Brasil ter se tornado extremamente competitivo, acredito que algo que nos permitiu chegar mais longe foi a coesão da cadeia produtiva, em todos os seus elos”, afirmou.
Informação da indústria precisa chegar de volta ao produtor
A consolidação internacional abre também uma nova etapa na relação entre a produção brasileira e seus compradores.
O setor avançou em rastreabilidade, sustentabilidade e geração de informações sobre a origem e as características da fibra. Para Alessandra, agora é necessário fazer parte desses dados percorrer o sentido contrário: da indústria para o campo.
“Temos tecnologia e poderíamos com isso entender o que a indústria realmente quer e precisa, principalmente em relação à qualidade”, disse.
A presidente da Abapa classificou a proposta como uma espécie de “rastreabilidade reversa”.
A ideia é identificar de maneira mais precisa quais características da fibra são demandadas por diferentes mercados e indústrias e fazer essas informações chegarem aos produtores, permitindo decisões mais direcionadas sobre variedades e sistemas produtivos.
“Precisamos saber o nível de qualidade e as características que a indústria procura, para que o produtor possa optar pela variedade específica, pelo modelo e por aquilo que vai produzir”, explicou.
Aurélio Pavinato também defendeu maior aproximação com os compradores e apontou aspectos nos quais a fibra brasileira ainda pode avançar, como índice de fibras curtas, pegajosidade e qualidade das informações fornecidas aos clientes.
Bahia se aproxima de 200 mil hectares irrigados com algodão
Outro componente da estratégia baiana é a expansão da irrigação.
Dados apresentados no congresso indicam que a Bahia possui cerca de 500 mil hectares irrigados, dos quais quase 200 mil hectares são destinados ao algodão.
A mudança não ocorre apenas em extensão. Segundo Alessandra Zanotto, o perfil dos investimentos também está se transformando.
Historicamente, sistemas de irrigação eram implantados com maior frequência em áreas consideradas mais vulneráveis às limitações climáticas. Nos últimos anos, produtores passaram a investir também na irrigação de áreas com elevado potencial produtivo.
A experiência de períodos anteriores de estiagem contribuiu para essa mudança.
“As safras 2015/2016 deixaram no produtor baiano um aprendizado imensurável. Isso fez com que ele olhasse para o manejo do solo e para a diversificação de culturas, buscando maior capacidade de retenção de água e preparo para uma condição climática desfavorável”, afirmou.
Diante dos riscos para a safra 2026/2027, a presidente da Abapa considera fundamentais o acompanhamento das previsões meteorológicas e o respeito às melhores janelas de plantio.
Gestão de custos ganha o mesmo peso da produtividade
A expansão da produção ocorre ainda em um ambiente de pressão sobre margens e custos.
Para Alessandra, a resposta não deve ser uma redução generalizada do pacote tecnológico empregado nas lavouras. A estratégia passa por conhecer com maior precisão o potencial de cada área e adaptar os investimentos às suas características.
Solo, infraestrutura, maquinário, beneficiamento e capacidade de resposta da lavoura precisam entrar nessa análise.
“A gestão do custo ficou tão importante quanto a produtividade”, resumiu.
A mudança representa uma evolução no próprio conceito de eficiência: não se trata apenas de produzir mais por hectare, mas de determinar quanto investir em cada ambiente produtivo para obter o melhor resultado econômico possível.
Logística e transparência são desafios para agregar valor
A posição alcançada pelo Brasil no mercado mundial também levanta outra questão: como transformar crescimento de produção e exportações em maior valor para a fibra brasileira.
Questionada por André Pessoa sobre como reduzir a diferença de prêmio em relação aos concorrentes internacionais, Alessandra destacou dois pontos.
“Uma é melhorar o nosso nível de transparência em relação ao que estamos entregando. E transparência tem a ver com qualidade. A outra é a logística”, afirmou.
Para a presidente da Abapa, o crescimento da produção precisa ser acompanhado por uma infraestrutura capaz de transportar volumes cada vez maiores de forma competitiva.
O desafio que se apresenta para a cotonicultura baiana, portanto, vai além de ampliar a quantidade produzida. Depois de atingir uma escala comparável à de importantes países produtores, o próximo movimento passa por produzir com maior previsibilidade, compreender melhor o que a indústria demanda, aprimorar a qualidade, administrar custos e melhorar as condições para que a fibra chegue aos mercados internacionais.
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