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Capa Economia

Reforma Tributária exige preparação imediata: por que o setor de serviços pode ser um dos mais impactados pelo novo modelo tributário

Publisher por Publisher
15/07/2026
em Economia, Negócios
Tempo de Leitura: 4 minutos
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Jordane Costa

Divulgação

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A Reforma Tributária sobre o consumo, consolidada pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentações infraconstitucionais em curso, representa uma das mais profundas mudanças no sistema tributário brasileiro nas últimas décadas. O modelo atual, baseado em múltiplos tributos (PIS, COFINS, ICMS e ISS), será substituído por dois tributos sobre valor agregado: a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços). A proposta traz como pilares a não cumulatividade plena, a tributação no destino, maior transparência e simplificação operacional. Contudo, apesar desses avanços estruturais, os impactos não serão homogêneos entre os setores, sendo o segmento de serviços um dos mais sensíveis às mudanças.

Embora a transição completa do novo sistema esteja prevista para ocorrer até 2033, seus efeitos começam a ser sentidos já em 2026, quando entram em vigor as alíquotas-teste da CBS (0,9%) e do IBS (0,1%). Esse período de convivência entre os modelos tributários exigirá atenção redobrada das empresas, tanto pela complexidade operacional quanto pelos riscos de inconsistências fiscais e financeiras.

Um dos principais pontos de atenção está no aumento da carga tributária nominal. Atualmente, as empresas de serviços estão sujeitas a alíquotas de ISS que variam entre 2% e 5%, além de PIS e COFINS que, no regime cumulativo, totalizam 3,65%, ou, no regime não cumulativo, atingem 9,25%. Com a implementação definitiva da CBS e do IBS, estima-se uma alíquota padrão em torno de 26,5%. Ainda que o novo modelo permita a apropriação ampla de créditos, o salto nominal é significativo e tende a gerar aumento efetivo da carga tributária, especialmente para empresas enquadradas no lucro presumido ou que operam com baixa estrutura de créditos. Em muitos casos, a diferença entre a carga atual e a futura não será integralmente compensada pelo novo sistema, resultando em pressão direta sobre margens e preços.

A problemática se intensifica quando analisada a estrutura de custos do setor de serviços. Diferentemente da indústria e do comércio, que possuem cadeias produtivas mais extensas e intensivas em insumos, o setor de serviços tem como principal componente de custo a mão de obra. No modelo proposto, despesas com folha de pagamento não geram créditos de CBS e IBS, o que limita substancialmente a capacidade de recuperação tributária. Na prática, isso significa que grande parte do custo das empresas permanecerá onerado, reduzindo a efetividade do princípio da não cumulatividade. Esse desalinhamento estrutural tende a tornar o setor menos competitivo, sobretudo quando comparado a segmentos que conseguirão capturar créditos relevantes ao longo da cadeia. Além do setor de serviços, especialistas apontam que segmentos como educação privada, saúde, construção civil e tecnologia também tendem a enfrentar pressões relevantes, justamente em razão de suas estruturas de custos e da limitada geração de créditos.

Outro fator que merece atenção é o período de transição entre os sistemas tributários. Durante a convivência entre os modelos, de 2026 a 2032, poderão surgir situações de bitributação, além de inconsistências decorrentes de classificações fiscais inadequadas, como erros na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), aumentando o risco de autuações e multas. Soma-se a isso a necessidade de revisão dos créditos tributários existentes, uma vez que muitos poderão prescrever antes da conclusão da transição, representando perdas financeiras caso não sejam devidamente aproveitados.

Além disso, o novo modelo introduz mecanismos como o split payment, que pode impactar diretamente o fluxo de caixa das empresas, ao antecipar o recolhimento do tributo no momento da liquidação financeira das operações. Para empresas de serviços, que já operam com margens mais ajustadas e menor capacidade de geração de créditos, esse fator pode agravar ainda mais a pressão financeira no curto prazo.

A implementação da Reforma Tributária também exigirá uma revisão profunda dos processos internos das organizações. Sistemas de gestão, controles fiscais, políticas de precificação, contratos comerciais e arquitetura operacional precisarão ser adaptados para atender às novas exigências legais e garantir conformidade durante todo o período de transição. Empresas que deixarem essas adequações para os últimos anos da implantação correm o risco de enfrentar custos elevados, perda de competitividade e dificuldades operacionais.

Diante desse cenário, torna-se indispensável a adoção de uma abordagem estratégica e preventiva. As empresas deverão mapear detalhadamente suas operações para identificar oportunidades de geração e aproveitamento de créditos, ainda que limitadas. Paralelamente, será fundamental revisar contratos comerciais, especialmente aqueles de longo prazo, a fim de prever cláusulas de reequilíbrio econômico-financeiro diante da nova carga tributária. A reavaliação da cadeia de fornecedores também ganha relevância, privilegiando parceiros que possibilitem maior geração de créditos e eficiência fiscal. Da mesma forma, a revisão das políticas de formação de preços será essencial para evitar a corrosão das margens decorrente da nova sistemática tributária.

Como observa Jordane Costa, Coordenador de Núcleo Contencioso e Consultivo Tributário, “as empresas que deixarem para reagir apenas em 2027 já estarão atrasadas. A Reforma não muda apenas tributos; muda toda a lógica do sistema. O período de convivência entre os modelos será o mais desafiador.”

Em síntese, mais do que uma mudança de legislação, a Reforma Tributária impõe ao setor de serviços — e a diversos outros segmentos da economia — a necessidade de uma reestruturação estratégica, exigindo planejamento técnico aprofundado para preservação de margens, competitividade e sustentabilidade no novo ambiente tributário. A preparação antecipada será determinante para transformar os desafios da transição em oportunidades de adaptação e crescimento.

Leia mais:

Novo decreto impulsiona demanda por plástico reciclado e acelera adaptação da cadeia de embalagens.

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