Iarodi D. Bezerra*
“Saúde mental é o desabrochar dos sonhos, de seu sentido de vida, da sua adaptabilidade nessa existência. Enquanto adoecimento mental é o definhar de tudo isso!”, respondeu Luiz Hosannah – meu professor da época em que estava na faculdade de Psicologia – a uma pergunta feita por um entrevistador em programa de rádio.
Escutar essa resposta foi um deleite para mim, pois sempre achei chatas as respostas engessadas que alguns muitos colegas “Psis” davam, pareciam que foram tiradas do buscador Google. A dele, não, foi suave como poesia quando entra pelos ouvidos e aquece corações!
O espaço terapêutico é assim para mim: um caderno gigante, com linhas em branco, escrito pelos clientes ao sentarem-se na poltrona, a partir de si textos poéticos. E, nesses textos vivos, um ponto de interrogação surge: o sorriso estampado nos rostos!
Sabe, mas não é um sorriso qualquer, é um sorriso machucado, que diz tudo o que não quer se quer dizer. Não é incomum encontrarmos alguém e com ele surge esse tal sorriso: amarelo e sem vida; indecifrável, tal qual o sorriso de Monalisa. Mas aí, vocês seguem a conversa, comem, bebem algo e se despedem. Quando voltam para seus respectivos destinos você pensa: “O que houve com fulano?”. Já aconteceu com você? Quem era você nessa situação?
Não tenha dúvidas que o sorriso machucado é o mal do século provocado pela sociedade contemporânea
Arthur C. Doyle, escritor que deu vida ao famoso detetive Sherlock Holmes, dirá que você e eu estamos envoltos por um mundo cheio de coisas óbvias, mas que ninguém jamais observa. Talvez seja pela inabilidade, insensibilidade ou por preguiça, mesmo que não enxergamos a obviedade presente no sorriso dele, que denuncie o seu sofrimento. Kurt Cobain diz que se o meu sorriso mostrasse o fundo da alma, muita gente choraria.” Estamos, nós, prontos para esse tipo de revelação? Confesso que ainda não!
Não tenha dúvidas que o sorriso machucado é o mal do século provocado pela sociedade contemporânea. A tirania que subjuga ao apontar o dedo impondo que tem que sorrir, mesmo que o mundo esteja desabando ao seu redor, desenvolvendo assim, pseudo-resilientes.
Na verdade não há resiliência alguma. Para mim, esses tipos de sorrisos são, expressões de choros sem lágrimas, protestos silenciosos contra a castração do direito de expressarem o verdadeiro mundo interno: caótico, cinzento, amargurado. São cicatrizes da alma ao avesso…
Bom, quando Luiz Hosannah fala sobre saúde mental daquela forma, logo vejo o dia a dia nas consultas. No início, o sorriso sem luz – indecifrável – está presente. Aos poucos, vai revelando o que está por trás: uma tristeza que nunca cessa, uma aflição do novo que não deixa de ser novo, uma raiva voraz que os consome de dentro para fora ou a confusão de não saber quem se é…
E, aos poucos, quando permite-se desabrochar seu eu real, cheio de potencialidade, que sobrepõe as dores da alma, o consultório se ilumina com a luz incandescente de um sorriso livre, decifrável, sincero…eis surge um lindo sorriso curado!
Iarodi D. Bezerra
Psicoterapeuta – Escritor
@iarodibezerra



















