Por Clarissa Pacheco
Há jornalistas que informam. Há jornalistas que narram. E há aqueles raros que confrontam. Mino Carta pertencia a essa última estirpe, a dos audaciosos e convictos, que não pedem licença ao poder para existir. Em Gênova na Itália, 06 de setembro de 1933, nascia Mino Carta, um dos mais influentes e respeitados nomes do jornalismo no Brasil. Filho de jornalista iniciou sua carreira ainda jovem, se tornando conhecido por seu estilo crítico, independente e opinativo, construindo uma trajetória marcante na imprensa brasileira. O jornalista ítalo-brasileiro que nos deixou em 02 de setembro de 2025, foi reconhecido pela defesa de um jornalismo mais interpretativo e menos subordinado a interesses econômicos, se tornando uma referência em debates sobre temas cruciais na constituição de uma sociedade, como ética, independência e o papel social da imprensa no Brasil, deixando um legado não apenas para o jornalismo, mas em um modo de pensar e existir em um Brasil tão diverso e plural e que a imprensa desempenha um papel fundamental. Mino Carta, participou da criação de veículos como a revista Veja, a IstoÉ e a Senhor e em 1994 fundou a respeitada revista Carta Capital que se consolidou como um espaço de análise política e econômica com uma linha editorial crítica mordaz dos poderes estabelecidos.
Em um cenário onde a neutralidade e isonomia muitas vezes se disfarça de omissão, sua trajetória desafiou o conforto das redações alinhadas e das manchetes domesticadas. Para Mino Carta, o jornalismo não é um exercício de equilíbrio entre versões, é antes de tudo, essencialmente um compromisso com a verdade possível, ainda que incômoda, desconfortante e inconformada, ainda que solitária. Mino nunca foi um homem de consensos fáceis e convenientes. Fundou, rompeu, recomeçou, como exige a própria essência do existir e posicionar-se no mundo, diante do espanto do “pensar”. Mino carta criou espaços e abandonou-os quando percebeu que a independência editorial corria risco iminente. Essa inquietação não é a contradição, é a coerência em movimento. Seus textos, não se limitavam a informar, mas provocavam. Não buscava agradar, mas tensionar. Há nele uma recusa clara ao jornalismo pasteurizado, aquele que transforma fatos em produtos e opiniões e mercadoria intencionalmente.
Num tempo em que algoritmos tentam ditar uma pseudo relevância e interesses econômicos disputam a narrativa pública, a voz do eterno Mino Carta ressoa como um lembrete incômodo, mas que deve ser ressignificado todos os dias: a imprensa que serve ao poder deixa de servir à sociedade. Mino Carta nos ensina que jornalismo não é sobre estar no centro, é sobre não perder o eixo inegociável. Informar é um dever essencial do jornalismo, mas questionar é indispensável. E resistir, é talvez o último ato de liberdade de da imprensa.
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