Uma iniciativa de agricultores do Cerrado brasileiro, criada para enfrentar custos elevados e ampliar o acesso a tecnologias de proteção de cultivos, tornou-se uma empresa com atuação em 18 estados. Essa trajetória é contada em um livro lançado pela CCAB durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), realizado nesta semana em Belo Horizonte (MG).
A publicação foi apresentada na quarta-feira (21) e abre as comemorações pelos 20 anos da companhia, que serão completados oficialmente em 2027. A cerimônia reuniu produtores, executivos e outras pessoas que participaram da construção da empresa desde sua origem.
Com pesquisa e texto da jornalista Catarina Guedes, o livro recupera o contexto do início dos anos 2000, quando agricultores enfrentavam aumento dos custos de produção, dificuldades de acesso a determinados defensivos agrícolas e os efeitos da ferrugem asiática sobre as lavouras.
Foi nesse ambiente que produtores e cooperativas começaram a discutir uma alternativa para ampliar o acesso a defensivos pós-patente e melhorar sua capacidade de negociação.
A articulação resultou na criação do Consórcio Cooperativo Agropecuário Brasileiro, estrutura que deu origem à atual CCAB.
Organização de produtores deu origem à companhia
Entre os nomes relacionados à criação da empresa estão o produtor Gilson Pinesso, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues e Marcio Portocarrero, que na época ocupava o cargo de secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Ministério da Agricultura.
Produtores e cooperativas de Mato Grosso e da Bahia tiveram participação na construção da iniciativa, em um período marcado pela expansão e profissionalização da agricultura no Cerrado e pelo avanço da cotonicultura.
Roberto Rodrigues assina o prefácio da publicação e relaciona a trajetória da CCAB à capacidade de organização dos produtores para desenvolver instrumentos próprios destinados a aumentar sua competitividade.
A origem da companhia revela uma característica particular do negócio: em vez de partir inicialmente da indústria de insumos, a iniciativa surgiu dos próprios agricultores, que buscavam alternativas para problemas encontrados dentro das propriedades.
Compra de carbendazim marcou início das operações
Entre os episódios recuperados pelo livro está uma das primeiras grandes operações comerciais da CCAB: a aquisição de carbendazim, fungicida então utilizado no campo.
Segundo o relato apresentado pela companhia, a compra foi realizada por um valor significativamente inferior aos preços praticados naquele momento. A entrada da CCAB no segmento contribuiu para ampliar a oferta de produtos pós-patente aos agricultores e introduzir novas referências comerciais nesse mercado.
A experiência ajudou a consolidar o modelo inicialmente proposto pelos produtores: utilizar escala e organização coletiva para ampliar o poder de negociação na aquisição de tecnologias necessárias à produção.
Combate à Helicoverpa também integra a história
Outro capítulo destacado é a crise provocada pela lagarta Helicoverpa armigera, que atingiu áreas agrícolas brasileiras e exigiu uma mobilização envolvendo produtores, entidades representativas, pesquisadores e poder público.
Durante a emergência fitossanitária, a CCAB participou da busca por produtos destinados ao controle da praga.
O episódio exigiu não apenas respostas técnicas, mas também soluções regulatórias e operacionais para disponibilizar alternativas aos produtores em um período de perdas significativas nas lavouras.
A experiência aparece no livro como um dos momentos em que a atuação da companhia ultrapassou sua relação comercial com os associados e clientes e passou a integrar uma resposta mais ampla da cadeia agrícola a um problema fitossanitário.
Entrada do grupo francês InVivo marcou nova fase
A publicação também acompanha as mudanças na estrutura da CCAB ao longo de quase duas décadas.
Entre elas está a entrada do grupo francês InVivo na estrutura societária e a consequente transformação do modelo de atuação da companhia.
A empresa deixou de atender um grupo mais concentrado de produtores e cooperativas e ampliou sua presença territorial, portfólio e base de clientes.
Atualmente, segundo a CCAB, a companhia está presente em 18 estados brasileiros.
A evolução mostra a transformação de uma iniciativa originalmente baseada na organização de produtores em uma operação empresarial de alcance nacional.
Próxima fase aposta em tecnologia, serviços e novos modelos de negócio
Embora tenha sido concebido como um registro histórico, o livro também serve como ponto de partida para discutir os próximos passos da companhia.
Para o CEO da CCAB, Eric Seban, a origem ligada diretamente aos agricultores continua influenciando as decisões estratégicas da empresa.
“Por termos nascido da iniciativa de produtores, sabemos exatamente onde o sapato aperta. Sabemos o peso da incerteza e o valor da previsibilidade. Agora a próxima fase da CCAB já começou. Ela passa por tecnologia, por serviços, por novos modelos de negócio e por uma visão mais integrada da cadeia”, afirma.
A publicação chega em um momento no qual o agronegócio enfrenta desafios diferentes daqueles existentes na criação da companhia, mas continua pressionado por questões como custos de produção, volatilidade internacional, clima, tecnologia e necessidade de ganhos de eficiência.
Ao recuperar duas décadas dessa trajetória, o livro registra também um capítulo da transformação da agricultura no Cerrado brasileiro e da organização dos produtores de estados como Bahia e Mato Grosso para ganhar escala e poder de negociação dentro de uma cadeia cada vez mais profissionalizada.
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