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Capa Esporte

Entre quadras e lifestyle: o tênis como fenômeno esportivo e social no Brasil

Publisher por Publisher
23/05/2026
em Esporte, Negócios Locais
Tempo de Leitura: 5 minutos
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Tenista jogando

Reprodução/Viagens Bacanas

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Durante décadas, o tênis no Brasil ocupou um espaço quase simbólico no imaginário esportivo Nacional. Associado a clubes tradicionais, a prática elitizada em quadras de condomínios privados e em momentos pontuais de glória internacional, a exemplo de Guga Kuerten, atleta que foi exemplo dentro e fora das quadras conquistando grandes feitos. O esporte parecia distante da paixão popular, que simboliza a força e resiliência genuinamente brasileira. A função social do esporte como vetor de aproximação e coesão social, e a possibilidade de sustentação da esperança e do sonho coletivo de uma nação que torce e vibra pelo esporte e seus atletas. A paixão popular esteve reservada até então ao futebol, ao vôlei e às lutas. Nos últimos anos algo mudou, o tênis deixou de ser apenas uma modalidade esportiva, para se transformar em um comportamento, com forte presença no mercado, na moda, entretenimento e símbolo de estilo de vida, acompanhando a tendência “wellness”, a busca por saúde e bem-estar físico e mental.

O que antes era um esporte de nicho, movimenta arenas lotadas nacional e internacionalmente, impulsiona marcas, aquece o turismo esportivo, mobiliza a criatividade da moda com as famosas “collabs”, e cria uma nova geração de praticantes ou não, fascinados, não apenas pela técnica e plasticidade do jogo, mas pela estética e pelo universo que a cerca. O tênis está mais pop do que nunca, virou cult. Em uma sociedade impregnada pela necessidade de pertencimento, onde há uma escalada competitiva também fora das quadras, se inserir no nicho do tênis para muitos, é mera questão de busca por status social, se fazer presente onde antes parecia algo inatingível. A prática do tênis se transformou em uma possibilidade de construir e aumentar a rede de networking, estabelecer relações, e até mesmo fazer negócios. O tênis em amplo sentido segue a tendência de ser visto como business em amplo sentido, ainda que não faça um real sentido para uma legião de novos praticantes.

A explosão dos torneios realizados no Brasil é um dos sinais mais evidentes dessa transformação. Eventos internacionais passaram a ocupar o calendário nacional de forma cada vez mais crescente e com uma força midiática que alavanca o esporte, atraindo patrocinadores, celebridades, influenciadores e um público cada vez mais diverso. Mais do que partidas, os torneios se converteram em experiências sociais: espaços de networking, gastronomia, moda, negócios e entretenimento. O fenômeno acompanha uma tendência global, com novos rostos e novas promessas e um novo “big tree” ainda não definitivamente consolidado, o que torna o esporte ainda mais competitivo se pensarmos em torneios internacionais.

O tênis vive uma fase de reposicionamento cultural. As redes sociais aproximam cada vez mais atletas do público; documentários esportivos ajudaram cada vez mais a humanizar estrelas do circuito; grandes marcas transformaram roupas e acessórios das quadras em itens de moda urbana, onde hoje é tendência ter tempo livre para prática de esportes, e a roupa ainda que suada pode acompanhar o resto do dia das pessoas. O “teniniscore” – estética inspirada no visual clássico do esporte – passou a influenciar coleções de streetwear, reforçando a ideia de que o tênis hoje é também uma linguagem visual sofisticada.

No Brasil o movimento ganhou força especialmente após a pandemia. Em um período marcado pela busca de esportes ao ar livre e práticas associadas ao bem-estar, o tênis encontrou um terreno fértil. Academias especializadas se multiplicaram, clubes e condomínios registraram filas de espera, e novas quadras surgiram em hotéis e empreendimentos de alto padrão. A ascensão de nomes no esporte como João Fonseca e Bia Haddad Maia, promessas como a jovem Victoria Barros, reacendeu ainda mais o interesse do público jovem pela modalidade. O país voltou a sonhar vibrantemente, o grito da torcida brasileira retomou o seu lugar nas quadras, o país voltou a enxergar no tênis a possibilidade de protagonismo internacional. Algo que marcou gerações na era de Gustavo Kuerten, cuja trajetória permanece como um dos capítulos mais emblemáticos do esporte nacional e seu maior legado é o jeito simples de ser, certamente foi um dos fatores que o transformou em um grande campeão e um orgulho nacional.

Mas a febre do tênis vai além das quadras profissionais, existe hoje um forte componente aspiracional ligado ao esporte. Praticar tênis virou disciplina, saúde, promessa de longevidade, diminuição dos riscos de demência, sinônimo de elegância e pertencimento a uma cultura contemporânea de performance e sofisticação. Arenas e clubes em todo Brasil passaram a funcionar como novos polos de convivência social. O mercado percebeu rapidamente o potencial econômico do fenômeno que é comportamental, nos torneios foi encontrada oportunidades estratégicas. Especialistas apontam que esse interesse e crescimento do tênis revela uma mudança de mentalidade no consumo esportivo brasileiro. O público está buscando cada vez mais experiências personalizadas, qualidade de vida e ambientes que conciliam lazer, exclusividade e sociabilidade.

Ainda assim, o esporte enfrenta desafios históricos. A democratização do acesso, continua sendo uma barreira que merece atenção. Custos com equipamentos, aulas e infraestrutura ainda limitam a expansão em larga escala. O desafio do Brasil será transformar o entusiasmo momentâneo em política de formação esportiva duradoura, ampliando oportunidades para jovens talentos fora dos grandes centros e clubes tradicionais, criar e implementar políticas públicas que fomentem a democratização à prática do esporte, e ultrapassar as barreiras das desigualdades sociais tão proeminentes em um Brasil de contrastes e com tantas mazelas e estratificações sociais, que por muitas vezes impedem a descoberta ou o desabrochar de grandes talentos e quiçá promessas para o tênis brasileiro que faça o país vibrar, torcer e sorrir pelo esporte. Torneios em alta, taxas de adesão elevadas, e narrativas preconceituosas e segmentadoras em seus portfólios de apresentação, dando força a estratificação e desigualdades sociais. Narrativas construídas para atrair um público de alto poder aquisitivo, lifestyle premium, engajamento digital ativo e etarismo, condições estas não mais toleradas em pleno século XXI e no mundo atual onde cada vez mais estar na moda é dar voz àqueles que não têm voz e são invisibilizados. A intolerância ao divergente, ao que não faz parte de um determinado grupo ou pseudo status quo é intolerável, as bolhas inacessíveis é o inimaginável em uma sociedade que busca o bem comum e a igualdade na vida, no esporte e nas oportunidades.

Mesmo diante dessas limitações e equívocos infelizes, o tênis resiste e resistirá, onde os grandes exemplos de humildade, generosidade, empatia e humanidade dos atletas nacionais e internacionais, dos grandes ídolos consagrados, são os mais destacados na mídia internacionalmente. O tênis vive hoje o seu momento raro: deixou de ser apenas uma modalidade esportiva para se consolidar como fenômeno cultural. Entre raquetes, arquibancadas lotadas, e uma estética que mistura tradição e modernidade, o Brasil assiste a uma nova febre nacional – silenciosa, sofisticada na atitude e na postura, cada vez mais influente e que o país sonha com a sua democratização.

Leia mais:

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