Entidades representativas da cadeia produtiva do Oeste da Bahia elaboraram uma agenda conjunta com propostas destinadas aos candidatos ao Governo do Estado para o período de 2027 a 2030. O documento, intitulado “Desenvolvendo o Futuro do Oeste – Desafios Estruturantes para a Competitividade Regional (2027–2030)”, reúne diagnósticos e soluções relacionadas a logística, energia, segurança jurídica, recursos hídricos, pesquisa, crédito, cooperativismo e agroindustrialização.
A iniciativa é da Aliança do Agro Oeste da Bahia, formada por 14 entidades, entre elas Abapa, Aiba, Fundação Bahia, Faeb, Aprosoja-BA, Aprosem, Acrioeste, cooperativas e sindicatos rurais.
A proposta parte da avaliação de que o Oeste baiano alcançou elevada eficiência produtiva “da porteira para dentro”, mas ainda enfrenta gargalos estruturais “da porteira para fora” que limitam a expansão da produção, dos investimentos e da geração de valor dentro do próprio estado.
Oeste concentra parcela relevante da produção agropecuária baiana
O documento apresenta a transformação econômica da região desde a expansão da agricultura no Cerrado baiano, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980.
A profissionalização da produção ganhou força nas décadas seguintes, acompanhada pela organização institucional dos produtores e pelo avanço das culturas de soja, milho e algodão.
Segundo os dados apresentados pela Aliança, o agronegócio respondeu por 24,9% do PIB baiano no terceiro trimestre de 2025, enquanto o Oeste concentra mais de um terço do PIB agropecuário estadual e a maior parcela da produção de grãos e fibras.
A região responde atualmente por cerca de 90% da produção baiana de soja e milho e mantém a Bahia como segundo maior produtor brasileiro de algodão.
A produtividade da cotonicultura também aparece entre os destaques. De uma média de 1.040 quilos de pluma por hectare no início dos anos 1990, o rendimento regional passou a superar 2 mil kg/ha, índice apresentado no documento como recorde mundial para produção de algodão em sistema de sequeiro.
Crescimento agrícola impulsiona cidades do interior
O documento relaciona o avanço do agronegócio à interiorização da atividade econômica.
Entre as 50 maiores cidades produtoras agrícolas do Brasil, sete estão na Bahia, sendo seis localizadas no Oeste.
Em Luís Eduardo Magalhães, município emancipado em 2000, o PIB per capita chegou a R$ 107,1 mil em 2023. São Desidério alcançou R$ 259,7 mil, segunda maior renda per capita entre os municípios baianos, enquanto Formosa do Rio Preto registrou R$ 205,9 mil.
A Aliança também cita estudo do Observatório da Indústria da FIEB que aponta redução da participação da Região Metropolitana de Salvador no PIB estadual, de 48,3% em 2009 para 39,4% em 2021, associando o movimento à interiorização de atividades produtivas e agroindustriais.
Logística é apontada como principal gargalo
O primeiro eixo do documento trata da infraestrutura logística e energética.
Segundo as entidades, aproximadamente 96% da pluma de algodão produzida no Oeste ainda é escoada pelo Porto de Santos, a cerca de 1,6 mil quilômetros da região produtora.
A avaliação é que a concentração logística aumenta o custo do transporte e reduz a competitividade dos produtos baianos.
Entre as soluções defendidas estão a conclusão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), a integração ao Porto Sul, em Ilhéus, e o fortalecimento do Porto de Salvador como corredor complementar para cargas agrícolas.
O documento também reivindica melhorias nas principais rodovias utilizadas para o escoamento da produção, incluindo BR-242, BR-020 e BR-135.
Enquanto essas intervenções não avançam, as entidades destacam que produtores vêm financiando a manutenção de estradas vicinais por meio do programa Patrulha Mecanizada. Desde 2013, mais de 3 mil quilômetros de estradas foram recuperados e mais de 500 quilômetros pavimentados, segundo o documento.
Energia limita novos investimentos industriais
A expansão da rede elétrica aparece como outra demanda prioritária.
As entidades apontam insuficiência na oferta de energia trifásica em determinadas áreas agrícolas, especialmente na região da Coaceral, o que limita projetos de irrigação, armazenagem, beneficiamento e instalação de agroindústrias.
A proposta é estabelecer, junto à Neoenergia Coelba, cronogramas de ampliação e modernização da rede.
O documento também sugere apoio estadual à geração distribuída e às fontes renováveis, além da expansão da conectividade digital nas zonas rurais.
Segurança jurídica é tratada como condição para acesso ao crédito
O segundo eixo trata de segurança jurídica, fundiária e fiscal.
A Aliança argumenta que os registros das propriedades rurais são fundamentais para a obtenção de crédito de custeio e investimento, já que os imóveis funcionam como garantias nas operações bancárias.
Entre as demandas estão maior uniformidade na aplicação da Lei de Registros Públicos, proteção a matrículas imobiliárias consolidadas e atualização de normas estaduais relacionadas à regularização fundiária.
As entidades também pedem revisão dos custos cartorários e maior previsibilidade tributária.
Um dos pontos de preocupação é o futuro de mecanismos como Prodeagro e Fundeagro diante da transição para o novo sistema tributário baseado em IBS e CBS.
A proposta é definir mecanismos de transição capazes de preservar fontes estáveis de financiamento para projetos de infraestrutura e desenvolvimento do setor.
Irrigação e recursos hídricos entram no terceiro eixo
A regularização das outorgas de água e dos licenciamentos ambientais constitui outro bloco central do documento.
As entidades defendem a criação de um Escritório Avançado do Inema no Oeste, com estrutura técnica permanente e maior capacidade decisória.
Também propõem prazos públicos para análise de licenças e outorgas e maior transparência nos processos.
Segundo o documento, a região possui atualmente aproximadamente 400 mil hectares irrigados.
Estudos realizados em parceria com a Universidade Federal de Viçosa e a Universidade de Nebraska teriam indicado capacidade técnica para expansão segura da irrigação até 680 mil hectares, considerando as condições do Aquífero Urucuia.
Outro projeto citado é o Nascentes do Oeste, que já teria revitalizado e protegido 140 cabeceiras de rios.
Sensoriamento remoto e fiscalização também entram na pauta
As entidades pedem revisão dos critérios utilizados por sistemas de monitoramento ambiental.
A proposta é que alertas produzidos por satélite sejam submetidos a validação técnica antes de resultar em embargos ou restrições de crédito, especialmente para diferenciar desmatamento irregular de práticas agrícolas autorizadas, como pousio, limpeza de pastagens e manejo rotativo.
O documento defende ainda maior articulação institucional do Governo do Estado em casos nos quais atos previamente validados pelo Inema sejam posteriormente questionados por outros órgãos de fiscalização e controle.
Pesquisa e agroindustrialização compõem quarto eixo
A última parte da agenda busca ampliar a capacidade de transformar a produção agrícola dentro do próprio estado.
O diagnóstico é que o Oeste possui elevada produção de matérias-primas, mas ainda apresenta espaço para crescimento em segmentos como fiação, confecção, processamento de coprodutos, armazenagem e outras atividades agroindustriais.
No caso do algodão, as entidades destacam que a cadeia respondeu por 2,4% dos novos empregos formais criados na Bahia, segundo dados citados do Caged.
Entre as propostas estão a criação de um Fundo Estadual de Pesquisa Agropecuária, modernização da infraestrutura científica, formação de pesquisadores e ampliação da assistência técnica.
As entidades também reivindicam fortalecimento da Desenbahia, com linhas de crédito para armazenamento, máquinas, energia renovável e infraestrutura hídrica.
Cooperativismo e formação profissional
O documento propõe ainda uma política estadual permanente de fortalecimento das cooperativas, associada a critérios de governança e transparência.
Outras medidas incluem construção de colégios agrícolas no Oeste, formação técnica para jovens, assistência à pecuária, fortalecimento da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) e ampliação das políticas de biosseguridade e defesa sanitária.
A agenda também busca ampliar o acesso a crédito para mulheres e jovens que administram propriedades rurais e fortalecer empresas fornecedoras de máquinas, equipamentos e serviços ligados ao agronegócio.
Dez diretrizes para o próximo governo
As propostas estão organizadas em dez diretrizes:
- Expansão dos modais ferroviário e portuário;
- Reestruturação da malha rodoviária e dos acessos;
- Estabilidade energética, segurança e conectividade rural;
- Aplicação uniforme da legislação fundiária;
- Modernização das normas e custos cartorários;
- Segurança e transição tributária;
- Modernização dos processos ambientais e hídricos;
- Desenvolvimento científico e tecnológico;
- Incentivos à agroindustrialização;
- Cooperativismo, aprendizagem e assistência técnica.
Nas considerações finais, as entidades afirmam que o objetivo é estabelecer uma agenda permanente de diálogo com o Poder Executivo estadual e transformar os gargalos identificados em políticas públicas capazes de sustentar o crescimento da agropecuária regional e ampliar sua contribuição para a economia da Bahia.
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